A CONQUISTA DA FELICIDADE SEGUNDO BERTRAND RUSSELL

Fernando Alcoforado*

Bertrand Arthur William Russell foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. A Conquista da felicidade, uma das obras de Bertrand Russell, representa contribuição importantíssima ao debate sobre a questão da felicidade (RUSSELL, Bertrand. A Conquista da Felicidade. Rio: Editora Nova Fronteira, 2015). Para Bertrand Russell, a primeira causa da felicidade que possa ser buscada por todos os homens é o prazer. Por prazer, se deve entender a realização de algo que supera algum obstáculo. Russell compreende que o homem sempre almeja o prazer e ele só pode ser alcançado quando as dificuldades em buscá-lo são superadas.

Para estabelecer um sentido para a palavra “prazer”, Russell considera que superar obstáculos requer alguma perícia. A perícia é fundamental para incentivar os instintos criativos. Nesta compreensão, o prazer em sua base deve ser entendido como a realização de algo que enseja a criatividade (grifo nosso). Nesta conceituação, o prazer pode ser alcançado tanto pelos cientistas que tentam responder os problemas por métodos rigorosos, quanto pelos pintores e literatos ao contemplarem suas obras concluídas. Portanto, Russell indica que o prazer é o caminho para a felicidade quando desperta no homem a criatividade (grifo nosso).

Ainda neste incentivo à criação, Russel explica que fatores importantes para atingirem a felicidade são a cooperação e a associação (grifo nosso). Isso significa dizer que, as criações e invenções devem ser dialogadas ou comunicadas para aumentarem o incentivo entre os homens para a vocação. A associação de homens, em torno de uma crença, pode trazer questões científicas ou artísticas, de modos diversos, mas que causam o prazer. A felicidade, então, possui um caminho bem traçado que é a crença em ideais da busca pelo prazer (grifo nosso).

No período em que Russell viveu, há explicações filosóficas que tratam o homem como um ser-para-morte ou que tratam a vida como um drama. Estas explicações muitas vezes tratam a vida sem sentido ou vazia de significados. Tais explicações são consideradas pelas escolas existencialistas. Russell não entende a vida desta forma. Para ele, quando há esta perda de sentido o homem se deixa levar por tolices ou manias que são máscaras para fuga da realidade. No livro, em questão, Russell dedica um capítulo específico que diverge de tais explicações existencialistas. Para ele, as pessoas desejam ser amadas e não toleradas.

A melancolia é a perda do gosto de viver. E Russell dedica um especial capítulo, no seu livro, para tentar investigar essa perda pelo gosto de viver. Vejamos a seguir os principais argumentos que ele apresenta. A condição para o homem se distanciar da melancolia é ter o gosto por viver. E a felicidade é a tradução deste apetite pela vida. Por apetite de viver, se deve entender o interesse pelas coisas que a vida nos apresenta. Para Russell, quanto mais objetos pelos quais o Homem se interessar mais ocasiões ele terá para ser feliz. Russell explica que é o interesse pelas coisas que rodeiam a vida, mas ao perceber tais coisas muitas vezes encontramos a nós mesmos. A busca da felicidade nesta compreensão significa o Homem se interessar por maior número de coisas possível (grifo nosso).

Segundo Russell, os interesses, quando se apresentam muito restritos distanciam o Homem da felicidade porque a chance da decepção, é ainda maior. Portanto, a continuação do caminho para a felicidade é o gosto pela vida e isso implica em se surpreender com o mundo. Para que haja um resgate do gosto de viver, o Homem precisa se sentir amado. Ao ser amado o Homem compreende a afeição como uma bondade (grifo nosso). Deixaremos claro, que Russell quer buscar os significados básicos para que a felicidade seja resgatada por todos independentemente de sua localização ou cultura. Então, a bondade deve ser compreendida como algo universal e para isso a investigação ganha um sentido mais simples. O Homem deve resgatar o bom “em si mesmo”. Um aspecto importante deste “bem em si mesmo” é a afeição que devemos receber e ao mesmo tempo dar. Por afeição, o Homem deve não agir por interesse, mas visar sempre a bondade inerente ao ser humano. Portanto, a afeição é uma troca desinteressada que não deve almejar segurança, proteção ou fuga da solidão. Ao contrário, a afeição deve ser incentivada na medida em que integre o Homem numa união, numa associação que não vise nenhum interesse. Apenas a comunhão do gosto pela vida.

O texto de Russell foi escrito com uma condução ética hedonista. Isto é, a felicidade deve ser considerada sempre como um bem perseguido por todos (grifo nosso). As categorias essenciais que procuramos demonstrar neste texto traduzem a tentativa de Bertrand Russell de apontar os caminhos para a conquista da felicidade e seus obstáculos. Ao contrário da felicidade, as infelicidades são produzidas pela falta de amor à vida que causam a desintegração do Homem (grifo nosso). O homem feliz, ao contrário, se considerar as categorias apresentadas para viver sentirá a unidade entre o íntimo e o mundo exterior. Tal unidade é o que o previne da compreensão sobre a vida como drama ou como melancolia. A unidade do íntimo com o externo é a causa fundamental da felicidade (grifo nosso) que é um caminho a ser percorrido por qualquer discussão ética contemporânea.

Em síntese, Bertrand Russell considera que a felicidade e que o prazer em sua base devem ser entendidos como a realização de algo que enseja a criatividade. A cooperação e a associação são fatores importantes para atingirem a felicidade no trabalho científico e no trabalho em geral. Esta condição dificilmente será alcançada em uma sociedade caracterizada pela competição e pelo conflito entre os seres humanos como a capitalista. Em outras palavras a felicidade jamais será alcançada no capitalismo.  Russell conclui que a felicidade, então, possui um caminho bem traçado que é a crença em ideais da busca pelo prazer e é, também, a tradução do apetite pela vida. Por apetite de viver, Russell entende como o interesse pelas coisas que a vida nos apresenta. Para que haja um resgate do gosto de viver, o Homem precisa se sentir amado. Ao ser amado o Homem compreende a afeição como uma bondade. Esta condição não será alcançada também em uma sociedade em desintegração como a capitalista em todos os quadrantes da Terra As infelicidades são produzidas pela falta de amor à vida que causam a desintegração do Homem.

Para Russell, quanto mais objetos pelos quais o Homem se interessar mais ocasiões ele terá para ser feliz. A busca da felicidade nesta compreensão significa o Homem se interessar pelo maior número de coisas possível. A felicidade deve ser considerada sempre como um bem a ser perseguido por todos. Esta conclusão de Russell aponta no sentido de que a felicidade deve ser perseguida e compartilhada por todos que, nas condições atuais, é impossível de ser realizada.  Russell finaliza destacando a unidade do íntimo com o externo como causa fundamental da felicidade. Isto significa dizer que a felicidade só será completa se há compatibilidade entre o indivíduo e o ambiente externo.

*Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016).  E-mail: falcoforado@uol.com.br.