OS EMPREGOS QUE DESAPARECERÃO COM O AVANÇO TECNOLÓGICO

Fernando  Alcoforado*

No livro The Second Machine Age (A segunda era da máquina), seus autores afirmam que a combinação do poder de computação maciço com redes abrangentes, aprendizado de máquinas, mapeamento digital e a “Internet das coisas” estão produzindo uma revolução industrial completa, na mesma escala que as transformações causadas pela energia a vapor e a eletricidade. A consultoria Boston Consulting Group prevê que, em 2025, até um quarto dos empregos seja substituído por softwares ou robôs, enquanto que um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, aponta que 35% dos atuais empregos no país correm o risco de serem automatizados nas próximas duas décadas (BRYNJOLFSSON, Erik e McAFEEE, Andrew. The second machine age. New York: Norton paperback, 2016).

Udo Gollub, CEO e fundador da empresa Sprachenlemen24 de Munique, fez conferência em Messe Berlin na Universidade da Singularidade quando apresentou previsões tecnológicas disponíveis no website <https://www.facebook.com/udo.gollub/posts/10207978845381135>, que se forem confirmadas reforçarão a Revolução Informacional ou Pós-industrial que vivenciamos. Em síntese, Udo Gollub afirma que: 1) o software irá destroçar a maioria das atividades tradicionais nos próximos 5-10 anos como o UBER vem fazendo com o serviço de táxis; 2) a Inteligência Artificial como a WATSON, da IBM, poderá oferecer aconselhamento jurídico (por enquanto em assuntos mais ou menos básicos) dentro de segundos, com 90% de exatidão se comparado com os 70% de exatidão quando feito por humanos; 3) em 2030, os computadores se tornarão mais inteligentes do que os humanos; 4) em 2018, os primeiros veículos serão dirigidos automaticamente; 5) ao redor de 2020, a indústria automobilística tradicional começará a ser demolida e a maioria das empresas fabricantes de carros poderá falir porque as companhias tecnológicas (Tesla, Apple, Google) adotarão a tática revolucionária construindo um computador sobre rodas; 6) carros elétricos se tornarão dominantes até 2020; e, 7) o preço da energia solar vai cair de tal forma que todas as mineradoras de carvão cessarão suas atividades ao redor de 2025.

Udo Gollub acrescenta que: 8) haverá um impacto na área da saúde porque teremos empresas que construirão um dispositivo médico (chamado Tricorder na série Star Trek) que trabalha com o seu telefone, analisa sua retina, testa sua amostra de sangue e analisa sua respiração (bafômetro). Analisará 54 bio-marcadores que identificarão virtualmente qualquer doença; 9) o preço da impressora 3D mais barata caiu de US $ 18.000 para US $ 400 em 10 anos e tornou-se 100 vezes mais rápido; 10) 70-80% dos trabalhos desaparecerão nos próximos 20 anos; 11) até 2020, haverá um aplicativo chamado moodies que já é capaz de dizer em que humor a pessoa está e pode saber se a pessoa está mentindo por suas expressões faciais; 12) Bitcoin (dinheiro virtual) pode tornar-se dominante em 2020 e pode até tornar-se moeda de reserva padrão; 13) em torno de 2036, as pessoas poderão viver bem por mais de 100 anos; e, 14) até 2020, 70% de todos os seres humanos terão um smartphone.

As profissões mais ameaçadas pelos robôs, segundo Wakefield, são os motoristas de táxi, operários de fábrica, jornalistas, médicos, advogados, funcionários de escritório, trabalhos de entrega de mercadorias, policiais, etc (WAKEFIELD, Jane. Quais profissões estão ameaçadas pelos robôs? Disponível no website <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150914_profissoes_robos_lgb>). Motoristas de táxi ao redor do mundo estão ameaçados pelo Uber quanto motoristas em geral por fabricantes de veículos que já estão fabricando unidades que dispensam a presença do motorista. Operários de fábrica estão ameaçados porque as linhas de montagem estão sendo cada vez mais automatizadas. A profissão de jornalista está ameaçada porque em futuro próximo, reportagens não serão mais escritas por jornalistas e sim por softwares capazes de coletar dados e transformá-los em textos minimamente compreensíveis. Os médicos estão ameaçados porque alguns procedimentos médicos são feitos de forma mais rápida por robôs que já estão ajudando médicos a realizarem cirurgias. Os funcionários de escritório já estão sendo substituídos por máquinas inteligentes que realizam inúmeras de suas tarefas. Os trabalhadores dedicados a entrega de mercadorias serão substituídos por drones ou veículos sem motorista. Policiais e militares serão substituídos por robôs.

Em 2013, pesquisadores da Oxford University publicaram um estudo detalhado do impacto da computação sobre o emprego nos Estados Unidos considerando os avanços recentes em aprendizado de máquinas (machine learning) e robôs móveis. Eles analisaram cada uma das categorias profissionais catalogadas pelo U.S. Bureau of Labor Statistics baseada em um banco de dados sobre competências requeridas para exercer esses empregos. Os pesquisadores concluíram que 47% dos atuais empregos estão sob alto risco de automação nos próximos anos e décadas e outros 19% sob risco médio. Eles consideram que somente um terço dos atuais trabalhadores estão salvos de substituição nas próximas uma ou duas décadas.

Os pesquisadores da Oxford University concluíram que as profissões que requerem trabalhos manuais (blue-collar) mais susceptíveis de substituição pela automação são as seguintes: 1) escavadores de esgoto; 2) supervisão de reparadores; 3) operadores de máquinas; 4) escrutinador; 5) funcionários de transporte, de recepção e de trânsito; 6) motoristas; 7) inspetores, testadores, classificadores e amostradores; 8) projetor de imagens no cinema; 9) caixas; 10) moedores e polidores; 11) trabalhadores rurais; 12) lobistas, tomadores de ingressos; 13) cozinheiros; 14) concessionários de jogos; 15) engenheiros de locomotivas; 16) atendentes de balcão; 17) funcionários de correios; 18) paisagistas e jardineiros; 19) montadores de equipamentos elétricos e eletrônicos; e, 20) trabalhadores para impressão, encadernação e acabamento. As profissões menos susceptíveis à automação entre os “blue-collars” são as seguintes: 1) terapeutas recreacionais; 2) audiologistas; 3) terapeutas ocupacionais; 4) ortopedistas e técnicos em prótese; 5) coreografistas; 6) médicos e cirurgiões; 7) dentistas e ortodentistas; 8) instrutores de educação física; 9) silvicultores; 10) enfermeiros; 11) maquiadores; 12) farmacêuticos; 13) treinadores e escoteiros; 14) terapeutas físicos; 15) fotógrafos; 16) quiropráticos; 17) veterinários; 18) artistas e artesãos; 19) designers florais; e, 20) designers de tecidos e roupas.

Os pesquisadores da Oxford University concluíram que as profissões que requerem trabalho intelectual (white-collar) mais susceptíveis de substituição pela automação são as seguintes: 1) preparadores de declaração de renda; 2) examinadores de títulos; 3) assinantes de serviços e processadores de reclamações; 4) funcionários de corretagem e entrada de dados; 5) oficiais de empréstimo; 6) analista de crédito; 7) funcionários de contadores e auditores; 8) funcionários assalariados; 9) arquivista; 10) operadores de quadros de distribuição; 11) gestores de benefícios; 12) assistentes de biblioteca; 13) operadores de reatores nucleares; 14) analista de orçamento; 15) escriturários técnicos; 16) transcriptores médicos; 17) cartógrafos; 18) revisores; 19) processadores de texto e datilógrafo. As profissões menos susceptíveis à automação entre os “white-collars” são as seguintes: 1) analista de sistema; 2) engenheiros; 3) artistas de multimídia e animadores; 4) cientista de pesquisa de computação e informação; 5) chefe executivo; 6) compositores; 7) projetistas de moda; 8) fotógrafos; 8) administradores de bancos de dados; 9) gestores de compras; 10) advogados; 11) escritores e autores; 12) desenvolvedores de software; 13) matemáticos; 14) editores; 15) projetistas gráficos; 16) controladores de tráfego aéreo; 17) engenheiros de som; e, 18) editores de escritório (desktop).

O avanço tecnológico gerará inevitavelmente três consequências: 1) a queda no consumo ou demanda geral de bens e serviços devido ao aumento do desemprego e a redução do poder aquisitivo da população trabalhadora; 2) o declínio da classe média com grandes implicações de natureza política haja vista que ela atua como aliada da burguesia em seu confronto com o proletariado; e, 3) o enfraquecimento da luta dos sindicatos em prol dos trabalhadores e da luta de classes entre burguesia e proletariado. Tudo isto que acaba de ser relatado impactará negativamente sobre o mundo do trabalho porque poderá levar ao fim do emprego, mas levará o mundo ao caos político, econômico e social nos planos nacional e mundial que acelerará o fim do capitalismo como sistema mundial em meados do século 21 em consequência de seus rendimentos decrescentes (queda tendencial do crescimento do PIB e da taxa de lucro mundiais). O proletariado deixaria de ser o messias da humanidade como preconizava Marx. O declínio da classe média onde se encontram os trabalhadores de “colarinho branco” coloca em xeque sua ascensão social cujos integrantes marginalizados e frustrados juntamente com o proletariado poderão se constituir em forças poderosas a serviço das mudanças sociais em prol do progresso social que beneficia toda a sociedade ou em massa de manobra do fascismo que beneficia as classes dominantes.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

THE JOBS THAT WILL DISAPPEAR WITH TECHNOLOGICAL ADVANCEMENT

Fernando Alcoforado *

In The Second Machine Age, the authors argue that the combination of massive computing power with comprehensive networks, machine learning, digital mapping, and the “Internet of Things” are producing a complete industrial revolution in same scale as the transformations caused by steam energy and electricity. Boston Consulting Group predicts that by 2025, up to a quarter of jobs will be replaced by softwares or robots, while a study by the University of Oxford in the UK points out that 35% of current jobs in the country run the risk of being automated in the next two decades (BRYNJOLFSSON, Erik and McAFEEE, Andrew, The second machine age, New York: Norton paperback, 2016).

Udo Gollub, CEO and founder of Sprachenlemen24 in Munich, gave a lecture at Messe Berlin at the University of Singularity when he presented technology forecasts available on the website <https://www.facebook.com/udo.gollub/posts/10207978845381135>, if they are confirmed will strengthen the Informational or Post-Industrial Revolution that we experience. In short, Udo Gollub states that: 1) the software will shred most traditional activities in the next 5-10 years as the UBER has been doing with the taxi service; 2) Artificial Intelligence such as IBM’s WATSON can offer legal advice (for now on more or less basic subjects) within seconds, with 90% accuracy compared to 70% accuracy when done by humans; 3) by 2030, computers will become smarter than humans; 4) in 2018, the first vehicles will be driven automatically; 5) Around 2020, the traditional auto industry will begin to be demolished, and most car manufacturers could fail because technology companies (Tesla, Apple, Google) will embrace the revolutionary tactics by building a computer on wheels; 6) electric cars will become dominant by 2020; and 7) the price of solar energy will fall so that all coal miners will cease their activities around 2025.

Udo Gollub adds that: 8) there will be an impact on the health area because we will have companies that will build a medical device (called Tricorder in the Star Trek series) that works with your phone, scan your retina, test your sample of blood and analyzes your breathing (breathalyzer). It will analyze 54 bio-markers that will identify virtually any disease; 9) The price of the cheapest 3D printer dropped from US$ 18,000 to US$ 400 in 10 years and became 100 times faster; 10) 70-80% of jobs will disappear in the next 20 years; 11) by 2020, there will be an application called moodies that is already able to tell in what mood the person is and can know if the person is lying by their facial expressions; 12) Bitcoin (virtual money) may become dominant in 2020 and may even become standard reserve currency; 13) around 2036, people will be able to live well for more than 100 years; and, 14) by 2020, 70% of all humans will have a smartphone.

The professions most threatened by robots, according to Wakefield, are taxi drivers, factory workers, journalists, doctors, lawyers, office clerks, merchandise delivery jobs, police officers, etc [WAKEFIELD, Jane. Quais profissões estão ameaçadas pelos robôs? (What professions are threatened by robots?) Available on the website <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150914_profissoes_robos_lgb>]. Taxi drivers around the world are threatened by Uber as drivers in general by vehicle manufacturers that are already manufacturing units that do not require the presence of the driver. Factory workers are threatened because assembly lines are being increasingly automated. The profession of journalist is threatened because in the near future, reports will no longer be written by journalists, but by software capable of collecting data and transforming it into minimally comprehensible texts. Doctors are threatened because some medical procedures are done more quickly by robots that are already helping doctors to perform surgeries. Office workers are already being replaced by smart machines that perform countless of their tasks. Workers engaged in the delivery of goods will be replaced by drones or vehicles without a driver. Police and military will be replaced by robots.

In 2013, researchers at Oxford University published a detailed study of the impact of computing on employment in the United States, considering recent advances in machine learning and mobile robots. They analyzed each of the professional categories cataloged by the U.S. Bureau of Labor Statistics based on a database of skills required to perform those jobs. The researchers concluded that 47% of current jobs are at high risk of automation in the coming years and decades and another 19% at medium risk. They consider that only a third of current workers are saved from replacement in the next one or two decades.

Researchers at Oxford University have concluded that the blue-collar professions most likely to be replaced by automation are as follows: (1) sewer diggers; 2) watch repairers; 3) machine operators; 4) tellers; 5) shipping, receiving and traffic clerks; 6) drivers; 7) inspectors, testers, sorters, and samplers; 8) projectionists; 9) cashiers; 10) grinders and polishers; 11) farm laborers; 12) lobby attendants, ticket takers; 13) cooks; 14) gaming dealers; 15) locomotive engineers; 16) counter attendants; 17) postal clerks; 18) landscapers and groundskeepers; 19) electrical and electronic equipment assemblers; and 20) print binding and finishing workers. The professions least susceptible to automation among the blue-collars are as follows: 1) recreational therapists; 2) audiologists; 3) occupational therapists; 4) orthotists and prosthetists; 5) choreographers; 6) phisicians and surgeons; 7) dentists and orthodontists; 8) athletic trainers; 9) foresters; 10) registered nurses; 11) makeup artists; 12) pharmacists; 13) coaches and scouts; 14) physical therapists; 15) photographers; 16) chiropractors; 17) veterinarians; 18) fine artists and craft artists; 19) floral designers; and, 20) fabric and apparel patternmakers.

Researchers at Oxford University have concluded that the professions requiring intellectual work (white collar work) most likely to be replaced by automation are: 1) tax preparers; 2) title examiners; 3) insurance underwriters and claims processors; 4) data entry and brokerage clerks; 5) loan officers; 6) credit analyst; 7) bookkeeping, accounting, and auditing clerks; 8) payroll clerks; 9) file clerks; 10) switchboard  operators; 11) benefit managers; 12) library assistants; (13) nuclear power reactor operators; 14) budget analyst; 15) technical writers; 16) medical transcriptionists; 16) cartographers; 17) proofreaders; 18) word processors and typists. The professions less susceptible to automation among white-collars are as follows: 1) computer systems analysts; 2) engineers; 3) multimedia artists and animators; 4) computer and information research scientists; 5) chief executives; 6) composers; 7) fashion designers; 8) photographers; 8) database administrators; 9) purchasing managers; 10) lawyers; 11) writers and authors; 12) software developers; 13) mathematicians; 14) editors; 15) graphic designers; 16) air traffic controllers; 17) sound engineers; and, 18) desktop publishers.

Technological progress will inevitably produce three consequences: 1) the decline in consumption or general demand for goods and services due to the increase in unemployment and the reduction of the purchasing power of the working population; (2) the decline of the middle class with major implications of a political nature, since it acts as an ally of the bourgeoisie in its confrontation with the proletariat; and (3) the weakening of the struggle of the trade unions and of the class struggle between the bourgeoisie and the proletariat. All that has just been reported will have a negative impact on the world of work because it may lead to an end to employment, but it will lead the world to political, economic and social chaos at the national and global levels that will accelerate the end of capitalism as a world system in the mid of the 21st century as a result of their declining yields (trend decline in world GDP- Gross Domestic Product growth and in profit rate). The proletariat would cease to be the messiah of humanity as advocated by Marx. The decline of the middle class where white-collar workers are located puts in question its social ascent, whose marginalized and frustrated members together with the proletariat can become powerful forces at the service of social change for the benefit of all society or mass maneuver of fascism that benefits the ruling classes.

* Fernando Alcoforado, 78, member of the Bahian Academy of Education and  the Brazilian Academy of Letters of Rotary – Bahia Section, engineer and doctor in Territorial Planning and Regional Development by the University of Barcelona, ​​university professor and consultant in the areas of strategic planning, business planning, regional planning and planning of energy systems, is the author of the books Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os Condicionantes de Desenvolvimento do Estado da Bahia (PhD Thesis, University of Barcelona, ​​http: //www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento da Bahia do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

 

O PROGRESSO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Fernando Alcoforado*

A leitura dos livros Artificial Intelligence de Jerry Kaplan (New York: Oxford University Press, 2016), Thinking Machines de Luke Dormehl (New York: Tarcher Perigee Book, 2017), Rise of the Robots de Martin Ford (New York: Basic Books, 2016) e Le mythe de la Singularité de Jean-Gabriel Ganascia (Paris: Éditions du Seuil, 2017) nos permitiu compreender a dimensão do avanço da inteligência artificial e de suas consequências para a humanidade que estão expostos nos parágrafos subsequentes.

Há muitas definições de inteligência artificial, mas muitas delas estão fortemente alinhadas com o conceito de criar programas de computador ou máquinas capazes de se comportar de forma inteligente como os seres humanos. Inteligência artificial (AI) é a capacidade de um computador digital ou um robô controlado por computador para executar tarefas comumente associadas a seres inteligentes. O termo é freqüentemente aplicado ao projeto de desenvolvimento de sistemas dotados dos processos intelectuais característicos dos humanos, como a capacidade de raciocinar, descobrir o significado, generalizar ou aprender com a experiência passada.

O que é Inteligência? Os psicólogos geralmente não caracterizam a inteligência humana apenas por uma característica, mas pela combinação de muitas habilidades diversas. A pesquisa em AI concentrou-se principalmente nos seguintes componentes da inteligência: aprendizagem, raciocínio, resolução de problemas, percepção e uso da linguagem. Quanto à aprendizagem, existem várias formas diferentes aplicadas à inteligência artificial. O mais simples é aprender por tentativa e erro. Por exemplo, um programa de computador simples para resolver problemas de jogo de xadrez O programa pode armazenar as soluções com a posição de uma das peças do xadrez, de modo que da próxima vez que o computador encontrar a mesma posição da mesma peça, ele lembraria as soluções adotadas. Esta simples memorização de itens e procedimentos individuais – conhecida como “rote learning” – é relativamente fácil de implementar em um computador. Mais desafiante é o problema de implementar o que é chamado de generalização. A generalização envolve a aplicação da experiência passada a situações novas análogas.

Raciocínio é a capacidade de extrair inferências adequadas à situação. As inferências são classificadas como dedutivas ou indutivas. Um exemplo de inferência dedutiva é o caso de acidentes anteriores que foram causados ​​por falha em um componente do qual se deduz  que o acidente foi causado pela falha deste componente. Na inferência dedutiva, a verdade das premissas garante a verdade da conclusão, enquanto que no caso indutivo a verdade da premissa presta apoio a conclusão sem dar uma garantia absoluta. O raciocínio indutivo é comum na ciência, onde os dados são coletados e os modelos tentativos são desenvolvidos para descrever e prever o comportamento futuro até que o aparecimento de dados anômalos forçe o modelo a ser revisado. O raciocínio dedutivo é comum em matemática e lógica, onde estruturas elaboradas de teoremas irrefutáveis ​​são construídas a partir de um pequeno conjunto de axiomas e regras básicas.

A resolução de problemas, particularmente na inteligência artificial, pode ser caracterizada como uma busca sistemática através de uma série de possíveis ações para alcançar algum objetivo ou solução predefinida. Os métodos de resolução de problemas dividem-se em fins especiais e de propósito geral. Um método de propósito especial é feito sob medida para um problema específico e, muitas vezes, explora características muito específicas da situação em que o problema está embutido. Em contrapartida, um método de propósito geral é aplicável a uma grande variedade de problemas. Uma técnica de uso geral usada em AI é análise passo-a-passo ou incremental da diferença entre o estado atual e o objetivo final. O programa seleciona ações de uma lista de meios – no caso de um robô simples até atingir o objetivo.

Na percepção, o ambiente é escaneado por meio de vários órgãos sensoriais, reais ou artificiais, e a cena é decomposta em objetos separados em várias relações espaciais. A percepção é complicada porque o objeto pode parecer diferente dependendo do ângulo a partir do qual é visto, da direção e da intensidade da iluminação na cena e o objeto contrasta com o campo circundante. Atualmente, a percepção artificial é suficientemente avançada para permitir que sensores ópticos identifiquem indivíduos, veículos autônomos dirijam a velocidades moderadas na estrada aberta e robôs percorram edifícios coletando latas de refrigerante vazias. Um dos primeiros sistemas para integrar a percepção e a ação foi o FREDDY, um robô estacionário com um olho de televisão em movimento e uma mão de pinça, construída na Universidade de Edimburgo, na Escócia, durante o período 1966-73 sob a direção de Donald Michie. FREDDY foi capaz de reconhecer uma variedade de objetos e poderia ser instruído a montar artefatos simples, como um carro de brinquedo, de uma pilha aleatória de componentes.

Com relação ao uso da linguagem, é importante observar que uma linguagem é um sistema de sinais com significado por convenção. Nesse sentido, o idioma não precisa ser confinado à palavra falada. Os sinais de trânsito, por exemplo, formam uma minilíngua, sendo uma questão de convenção que {símbolo de perigo} significa “perigo à frente” em alguns países. Uma característica importante das linguagens humanas com os sinais de trânsito percepção é complicada pelo fato de que um objeto pode parecer diferente dependendo do ângulo – é a produtividade desses. Uma linguagem produtiva pode formular uma variedade ilimitada de frases. É relativamente fácil escrever programas de computador que parecem capazes, em contextos severamente restritos, responder com fluência em linguagem humana a perguntas e declarações. Embora nenhum desses programas realmente entenda a linguagem, eles podem, em princípio, chegar ao ponto em que seu domínio de uma linguagem é indistinguível daquele de um ser humano normal.

Desde o desenvolvimento do computador digital na década de 1940, foi demonstrado que os computadores podem ser programados para realizar tarefas muito complexas – como, por exemplo, descobrir provas para teoremas matemáticos ou jogar xadrez – com grande proficiência. Ainda assim, apesar dos progressos contínuos na velocidade e na capacidade de memória do processamento de computadores, ainda não existem programas que possam combinar a flexibilidade humana em domínios mais amplos ou em tarefas que exigem muito conhecimento diário. Por outro lado, alguns programas alcançaram os níveis de desempenho de especialistas e profissionais humanos na realização de certas tarefas específicas, de modo que a inteligência artificial neste sentido limitado é encontrada em aplicações tão diversas como, por exemplo, diagnóstico médico e reconhecimento de voz.

O aprendizado de máquina (machine learning) é um campo de ciência da computação que dá aos computadores a capacidade de aprender sem serem explicitamente programados. Arthur Samuel, um pioneiro norte-americano no campo de jogos de computador e inteligência artificial, cunhou o termo “Aprendizado de máquinas” em 1959, quando trabalhava na IBM. Evoluído a partir do estudo do reconhecimento de padrões e da teoria da aprendizagem computacional na inteligência artificial, o aprendizado de máquina explora o estudo e a construção de algoritmos que podem aprender e fazer previsões sobre os dados. Esses algoritmos superam seguindo instruções estritamente estáticas do programa fazendo previsões ou decisões baseadas em dados, através da construção de um modelo a partir de entradas de amostra. O aprendizado de máquina é empregado em uma variedade de tarefas de computação como a filtragem de e-mail, detecção de intrusos de rede ou iniciantes mal-intencionados que trabalham para uma violação de dados, reconhecimento óptico de caracteres aprendendo a classificação e visão por computador.

O aprendizado de máquina está intimamente relacionado com as estatísticas computacionais (e muitas vezes se sobrepõem), que também se concentra na criação de previsão através do uso de computadores. Tem fortes laços com a otimização matemática, que fornece métodos, teoria e domínios de aplicação ao campo. Na análise de dados, o aprendizado de máquina é um método usado para conceber modelos e algoritmos complexos que se prestam à predição. Em uso comercial, isso é conhecido como análise preditiva. Esses modelos analíticos permitem que pesquisadores, cientistas de dados, engenheiros e analistas “produzam decisões e resultados confiáveis ​​e repetíveis” e descobrem “insights ocultos” através da aprendizagem de relacionamentos históricos e tendências nos dados.

Em 1950, o cientista da computação britânico Alan Turing já especulava sobre o surgimento de máquinas pensantes (thinking machines) em sua obra “Computing Machinery and Intelligence”, e o termo “inteligência artificial” foi cunhado, em 1956, pelo cientista John McCarthy. Após alguns avanços significativos nos anos 1950 e 1960, quando foram criados laboratórios de inteligência artificial em Stanford e no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT, na sigla em inglês), ficou claro que a tarefa de criar uma máquina assim seria mais difícil do que se pensava. Veio então o chamado “inverno da inteligência artificial”, um período sem grandes descobertas nesta área e com uma forte redução no financiamento de suas pesquisas.

Na década de 1990, a comunidade dedicada à inteligência artificial deixou de lado uma abordagem baseada na lógica, que envolvia criar regras para orientar um computador como agir, para uma abordagem estatística, usando bases de dados e pedindo para a máquina analisá-los e resolver problemas por conta própria. Especialistas acreditam que a inteligência das máquinas se equiparará à de humanos até 2050, graças a uma nova era na sua capacidade de aprendizado. Computadores já estão começando a assimilar informações a partir de dados coletados, da mesma forma que crianças aprendem com o mundo ao seu redor. Isso significa que estamos criando máquinas que podem ensinar a si mesmas a participar de jogos de computador – e ser muito boas neles – e também a se comunicar simulando a fala humana, como acontece com os smartphones e seus sistemas de assistentes virtuais.

A imediata consequência do progresso da inteligência artificial é o avanço do desemprego. Este efeito social negativo é inevitável porque resulta de forças econômicas que estão fora de controle. A inteligência artificial é positiva para o capitalista que faz uso dela porque passaria a enfrentar seus concorrentes de forma mais competitiva haja vista que proporcionaria, entre outras vantagens, o aumento de sua produtividade e a redução de seus custos. No entanto, seria, também, extremamente negativa para o capitalista porque tende a reduzir a renda à disposição da massa dos trabalhadores excluídos da produção contribuindo, desta forma, para a queda na demanda de produtos e serviços. A grande ameaça da inteligência artificial é a de que ela poderá conduzir à extinção da raça humana, segundo o cientista Stephen Hawking que publicou artigo abordando esta questão em 1º de maio de 2014 no jornal The Independent. Hawking afirma que as tecnologias se desenvolvem em um ritmo tão vertiginoso que elas se tornarão incontroláveis ao ponto de colocar a humanidade em perigo. Hawking conclui: hoje, haveria tempo de parar; amanhã seria tarde demais.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

COMO SEPULTAR A BARBÁRIE QUE DOMINA O MUNDO

Fernando Alcoforado*

Barbárie consiste no estado de caos e desordem, quando não há uma cultura ou um padrão de convívio entre os indivíduos, tornando-os seres cruéis e violentos. Eric Hobsbawm observa que a barbárie significa uma ruptura com os padrões morais que regulam a vida em sociedade e os controles sociais tradicionais dando lugar à violência desenfreada e o desprezo pelo ser humano. Segundo o grande historiador britânico já falecido, Eric Hobsbawn, nos últimos 150 anos, a barbárie tem aumentado permanentemente. Ano a ano, década a década, a violência e o desprezo pelo ser humano têm aumentado parecendo não haver um limite para este fenômeno. Algo muitíssimo pior: os homens e mulheres se acostumaram com a barbárie já não existindo espanto, estranheza, nem horror frente aos atos desumanos (HOBSBAWM, Eric. La barbarie: guia del usuário. Disponível no website <http://pt.scribd.com/doc/50203686/La-barbarie-guia-del-usuario>).

O filósofo Karl Marx escreveu em 1847 esta passagem surpreendente e profética: “A barbárie reapareceu, mas desta vez ela é engendrada no próprio seio da civilização e é parte integrante dela. É a barbárie leprosa, a barbárie como lepra da civilização” (LOWY, Michael. Barbárie e modernidade no século 20. Publicado no Brasil pelo jornal “Em Tempo”- emtempo@ax.apc.org e, originalmente em francês, na revista “Critique Communiste” nº 157, hiver 2000). O genocídio nazista contra os judeus, ciganos e comunistas, o uso da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, o Goulag stalinista, a guerra do Vietnã, o ataque terrorista ao World Trade Center em New York, as duas guerras do Iraque, a guerra do Afeganistão e a guerra civil recente da Líbia e na Síria exemplificam de maneira mais acabada a barbárie que caracteriza o mundo em que vivemos.

A Primeira e a Segunda Guerra Mundial estabeleceram uma nova forma de barbárie eminentemente moderna, bem pior em sua desumanidade assassina do que as práticas guerreiras dos conquistadores “bárbaros” do fim do Império Romano. Segundo Eric Hobsbawn, a Grande Guerra (1914-1918) abre a etapa mais sanguinária da história mundial. 1914 começa com os sacrifícios ilimitados no afã de eliminar o inimigo. Sacrifício este que incorpora a própria população civil. 1914 começa com a era da guerra total, a ausência de distinções entre combatentes e não combatentes (HOBSBAWM, Eric. La barbarie: guia del usuário. Disponível no website <http://pt.scribd.com/doc/50203686/La-barbarie-guia-del-usuario>).

Os historiadores supõem que sempre existiram guerras porque no registro documentado da história humana, que remonta há 6.000 anos, houve apenas 292 anos de relativa paz entre os povos. Esse período de tempo de 55 séculos, porém, é apenas uma partícula do tempo total da presença humana na Terra. A despeito das reiteradas intenções de todos os países do globo em manter a paz mundial com a constituição da Liga das Nações idealizada em 1919 e da ONU implantada em 1945, as quais se constituíram em federações de nações nos moldes propostos por Kant em sua obra A Paz Perpétua, o Século XX foi palco (até agora) de três grandes guerras: 1ª e 2ª Guerra Mundial e a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), morreram cerca de 9 milhões de pessoas. Apenas vinte anos depois, eclodia a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que matou entre 40 e 52 milhões de pessoas. De 1914 a 1990, morreram 187 milhões de pessoas, em atos bélicos ou extermínio sistemático. As guerras do século XX foram “guerras totais” contra combatentes e civis sem discriminação. O historiador Eric Hobsbawm informa em que: “Sem dúvida ele foi o século mais assassino de que temos registro, tanto na escala, frequência e extensão da guerra que o preencheu, mal cessando por um momento na década de 20, como também pelo volume único das catástrofes humanas que produziu, desde as maiores fomes da história até o genocídio sistemático” (HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos. Companhia das Letras, 2008).

Contemporaneamente, a humanidade se defronta com o terrorismo globalizado resultante da ação imperialista recente no Iraque, na Líbia, na Síria e no Afeganistão, entre outros países e a ameaça de eclosão de uma guerra nuclear entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte. A violência entre os seres humanos se manifesta não apenas nas relações internacionais. Ela está presente na vida cotidiana da grande maioria dos países do mundo. A violência mata mais de 1,6 milhão de pessoas no mundo a cada ano, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A violência é hoje a principal causa das mortes de pessoas entre 15 e 44 anos respondendo por 14% das mortes de homens e 7% das mortes de mulheres. Nos últimos 30 anos, as vítimas de homicídios no Brasil chegam a mais de 1 milhão de pessoas (BLOG DO TAS. Violência no Brasil: pior que Iraque, Angola e Afeganistão. Disponível no website <http://blogdotas.terra.com.br/2011/12/28/violencia-no-brasil-pior-que-iraque-angola-e-afeganistao/>).

Por que países como a Holanda e Suécia estão fechando prisões, enquanto o Brasil está aumentando a quantidade de presos? Por que Noruega tem baixo índice de reincidência, enquanto são altos os índices no Brasil? Nos países onde o número de presos está diminuindo, isto acontece porque a redução da criminalidade resulta de políticas de bem estar social que proporcionam justiça social e acesso de toda a população à educação de qualidade. Além disso, a quantidade de presos diminui porque há um enfoque mais compreensivo em relação ao tema drogas, aplicação de mais penas alternativas, inclusive para pequenos roubos, para os furtos e lesões não graves etc.

Vivemos em um mundo que tem como uma das suas características principais a violência praticada pelo homem contra seus semelhantes. A percepção de muita gente é a de que a violência representa o predomínio do instinto animal que possuímos sobre os valores da civilização. Isto explicaria a escalada da criminalidade e das guerras em todas as épocas em todo o mundo. Uma tese defendida, sobretudo na atualidade, por algumas religiões e por alguns psicólogos e filósofos é o de que o homem seria visceralmente mau, intrinsecamente perverso e, por natureza, corrupto. Outras religiões e outros psicólogos e filósofos apresentam, entretanto, tese diametralmente oposta.

O Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo, o psicólogo Freud e o filósofo Thomas Hobbes convergem em seus pensamentos ao considerar que o ser humano tem uma inclinação para o Mal os quais são contrapostos aos das religiões orientais, do Espiritismo, do psicólogo Carl Rogers e dos filósofos Rousseau e Karl Marx, que defendem a tese de que a sociedade é que o degenera lançando-o contra o seu semelhante. Enquanto existir a injustiça social extrema resultante do capitalismo selvagem dominante e a falta de acesso de toda a população à educação de qualidade, o Brasil e o mundo continuarão convivendo com a violência extrema e o Mal prevalecendo sobre o Bem.

O grande desafio da era contemporânea é fazer a humanidade evoluir do estágio de barbárie em que se encontra no momento ao de civilização na qual existiria um contrato social planetário com base no qual haveria a concórdia entre os seres humanos e o respeito dos seres humanos pela natureza. Para fazer frente à barbárie contemporânea e fazer com que a paz prevaleça nas relações internacionais, é preciso constituir um governo mundial que teria por objetivo a defesa dos interesses gerais da humanidade compatibilizando-os com os interesses dos povos de cada nação e evitar que as relações internacionais sejam regidas pela lei do mais forte como tem sido ao longo da história da humanidade. Para fazer frente à barbárie contemporânea e fazer com que a paz prevaleça no interior de cada nação, é preciso que se implante um modelo de sociedade nos moldes da social democracia escandinava (Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia) que é um híbrido de capitalismo e socialismo no qual os elementos positivos de ambos os sistemas estão presentes.  Em 2013, a revista The Economist declarou que os países nórdicos são provavelmente os mais bem governados do mundo. O relatório World Happiness Report 2013 da ONU mostra que as nações mais felizes estão concentradas no Norte da Europa, com a Dinamarca no topo da lista. Os nórdicos possuem a mais alta classificação no PIB real per capita, a maior expectativa de vida saudável, a maior liberdade de fazer escolhas na vida e a maior generosidade.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

O ECLIPSE DA RAZÃO NO BRASIL

Fernando Alcoforado*

Vivemos na atualidade no Brasil, uma única catástrofe, como afirmava Walter Benjamin, ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão, associado à Escola de Frankfurt, de que o inferno não é aquilo que chegará, mas sim é essa vida aqui e agora (Ver o artigo de Helmut Thielen sob o título Além da modernidade para a globalização de uma esperança conscientizada. Petrópolis: Vozes, 1998). Estamos vivendo no Brasil uma era cuja principal característica é o aprofundamento da barbárie devido a existência de: 1) um sistema político-institucional corrupto e desmoralizado; 2) um sistema econômico falido; e, 3) uma sociedade em franco processo de desagregação.

A barbárie que se registra hoje no Brasil é o produto do eclipse da Razão, no bojo da crise quase terminal do capitalismo neoliberal, quando morre o mito do Progresso que realizaria o sonho iluminista da Razão. Observe-se que a Razão é vista como o armamento das ideias, a arma utilizada nos conflitos travados entre pontos de vista contraditórios. Isto indica que, num certo sentido, a Razão é um absoluto que, corretamente utilizado, pode pôr termo a disputas e guiar-nos até à verdade. A maior parte da ciência e da filosofia encontra-se do lado que afirma que a Razão, apesar das suas imperfeições e falibilidades, fornece uma norma à qual os pontos de vista concorrentes têm de se submeter para apreciação. Este não é o caso do Brasil que opera com extrema irracionalidade nas esferas política, econômica e social.

Mas, afinal, o que é o progresso? Progresso significa movimento para frente tendo como sinônimo avanço e progressão. O progresso pode ser definido como um processo cumulativo no qual o estágio mais recente é sempre considerado preferível e melhor, ou seja, qualitativamente superior, ao que o precedeu. Neste sentido, a mudança ocorre em uma determinada direção e essa progressão é interpretada como uma melhoria em relação à situação anterior. Assim, a mudança é orientada para o melhor, é necessária, isto é, não se pode parar o progresso, e é irreversível, isto é, nenhum retorno ao passado é possível. A melhoria seria inevitável. O amanhã sempre será melhor que o hoje. Dentro desta perspectiva, pode-se afirmar que no Brasil temos uma regressão e não um avanço ou progressão nos sistemas político, econômico e social. Pode-se afirmar que o Brasil está se movendo para trás.

Tudo o que está acontecendo no Brasil conspira contra tudo que pregava o Iluminismo a partir do século XVIII, quando um grupo de pensadores começou a se mobilizar em torno da defesa de ideias que pautavam a renovação de práticas e instituições vigentes em toda Europa, levantando questões filosóficas que pensavam sobre a condição e a felicidade do homem. O movimento iluminista atacou sistematicamente tudo o que era considerado contrário à busca da felicidade, da justiça e da igualdade. O que se verifica hoje no Brasil é a antítese do que preconizava o Iluminismo. É preciso destacar que o pensamento iluminista elegeu a “razão” como o grande instrumento de reflexão capaz de melhorar e empreender instituições mais justas e funcionais.

Um observador atento ao que acontece no Brasil percebe a decadência vivida nos sistemas político, econômico e social. Em cada dia que se passa os valores básicos de moral, honra e respeito estão se perdendo em nossa sociedade. Os seres humanos destroem aquilo que constroem, luta com seus semelhantes pelos motivos mais fúteis possíveis, age com violência e vulgariza-se e se sujeita as piores humilhações em busca do poder e da riqueza. Os seres humanos nascem e crescem no Brasil se sujeitando às banalidades criadas e aceitas passivamente pela maioria.

Talvez estejamos num caminho sem volta, sem recuperação caminhando para um abismo. No Brasil e no mundo, os seres humanos construíram e valorizaram um liberalismo capitalista desprezível que destrói e corrompe o homem a cada dia, deixando-o alienado e distante das grandes virtudes morais. Para a maioria é mais simples e prático acompanhar o pensamento tradicional e aceito pela sociedade e julgado como correto e normal, ao invés de desenvolver um pensamento crítico e oposto ao que é imposto como normal e correto.

Cada vez mais, os meios de comunicação deixam explícito que estamos crescentemente vulneráveis à violência, obrigando-nos a constatar que ela invadiu todas as áreas da vida e das relações do indivíduo no Brasil. É evidente a preocupação com a violência na sociedade brasileira atual que se manifesta no crime organizado, na corrupção generalizada nos diversos órgãos públicos, nos assaltos a cidadãos e bancos, etc. A violência representa tudo aquilo que fere, destrói, agride ou machuca as pessoas – ações que não preservam a vida e sim prejudicam o bem estar tanto individual quanto coletivo. Vivemos em um país que tem como uma das suas características principais a violência praticada pelo homem contra seus semelhantes.

A verdade é que assim caminha o Brasil. Este é o resultado da maior crise de valores do Brasil em toda sua história em que os governantes revelam grande incapacidade para gerir a situação, podendo mesmo levar á  crise de governabilidade e ao surgimento de ditaduras que acabem com as parcas liberdades existentes. Aliado à existência de governantes incompetentes descomprometidos com os interesses da nação, convivemos com uma população alienada ao extremo e incapaz de discernir sobre os melhores caminhos para o Brasil. As pesquisas eleitorais que consideram Lula e Bolsonaro como os candidatos mais cotados a vencer as eleições presidenciais são um atestado da alienação que domina a população brasileira que não percebe que se eleger um ou outro desses candidatos o Brasil poderá se defrontar com a convulsão social de consequências imprevisíveis haja vista a rejeição de ambos pela população. É lamentável que não surja nenhum candidato capaz de aglutinar a nação brasileira em torno de um projeto de desenvolvimento nacional que contribua para a construção de um futuro radioso para o Brasil.

Tudo isto acontece no momento atual ao mesmo tempo em que ocorre a maior crise econômica registrada na história do Brasil que pode arrastar o país para uma convulsão social sem precedentes. Só poucos estão atentos e conscientes aos “sinais” dos tempos e difundem a verdade para os que nada sabem sobre os dias difíceis que se aproximam no Brasil. Que fim terá o Brasil, nossas vidas, se o país em que vivemos virou um caos ingovernável e que não apresenta perspectiva de solução com os candidatos presidenciais? É vergonhosa a situação a que chegou o Brasil onde a fome mata todos os dias milhões de pessoas, a maior parte crianças que não chegam à idade adulta por falta de alimento, enquanto outras comem demais e ficam obesas pelos erros e excessos alimentares como o fazem seus próprios pais. Vivemos em um mundo de contrastes entre luxo e lixo, riqueza material e miséria.

A superestrutura política e jurídica de uma nação é baseada em um contrato social, isto é, um pacto social que guia não apenas o governo, mas também a própria sociedade. Feito o pacto social entre os indivíduos é que se estabelece um contrato social entre o  governo e a Sociedade Civil. Portanto, o governo e a Sociedade Civil são regidos pelo pacto e pelo contrato social. A Constituição de 1988 perdeu toda a plausibilidade, pois o sistema de governo representativo está desmoralizado e em crise profunda. Em primeiro lugar porque perdeu todas as possibilidades práticas da participação real do cidadão nas decisões do governo ao longo do tempo e em segundo lugar porque não representa ninguém mais além da burocrática máquina corrupta dos partidos e dos detentores do poder econômico. Esta situação já está abrindo caminho para a desobediência civil como anuncia o PT caso Lula seja preso por determinação da justiça.

Da desobediência civil podem resultar 2 cenários: 1) a construção de um novo pacto social no qual são estabelecidas as bases de uma nova convivência entre os setores da  Sociedade Civil e dela com o Estado; e, 2) a guerra civil quando o dissenso inviabiliza a construção de um novo pacto social que termina com a conquista do Estado por um dos setores da Sociedade Civil em conflito que impõe sua vontade aos demais. A construção de um pacto social exige o consenso na Sociedade Civil quanto aos termos da Constituição a ser elaborada e das leis que dela resultarem. Trata-se de uma construção difícil de ser realizada no Brasil porque, hoje, o consenso na Sociedade Civil é praticamente inviável pela ausência de lideranças e instituições capazes de liderar este processo.

A continuidade da situação vivida atualmente pelo Brasil no âmbito do Estado e da Sociedade Civil é insustentável. De um lado, já existe um clamor nacional contra a corrupção endêmica que contamina toda a estrutura de poder no Brasil que tende a crescer com a repetição dos escândalos no País. De outro lado, com o agravamento da situação econômica no Brasil que deverá resultar no incremento ainda maior do desemprego e no empobrecimento da maioria da população, as tensões sociais poderão crescer no País. O clamor nacional contra a corrupção e a crescente insatisfação popular contra os rumos da economia podem conduzir o Brasil a uma crise de governabilidade que poderá dar margem a intervenções militares visando a manutenção da ordem pública como sempre aconteceu na história do Brasil, criando, desta forma, o caldo da cultura para o advento de regimes de exceção. Para evitar este cenário, urge a eleição de um presidente da República que aglutine a nação em torno de um projeto comum de desenvolvimento nacional e possibilite construir um novo pacto social no Brasil, através de uma Assembleia Nacional Constituinte, para realizar uma profunda reforma política, econômica, do Estado e da Administração Pública  no País.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

COMO ALCANÇAR O PROGRESSO ECONÔMICO E SOCIAL  

COMO ALCANÇAR O PROGRESSO ECONÔMICO E SOCIAL  

Fernando Alcoforado*

O Sumário Executivo do Índice de Progresso Social 2014 define o progresso social como a capacidade de uma sociedade atender às necessidades humanas básicas de seus cidadãos, estabelecer os componentes básicos que permitam aos cidadãos e às comunidades melhorarem e manterem a qualidade de vida e criarem as condições para que todos os habitantes atinjam seu pleno potencial. Dessa definição, o Sumário Executivo inferiu as três dimensões do Modelo do Índice de Progresso Social: 1) Necessidades Humanas Básicas (Nutrição e cuidados médicos básicos; Água e saneamento; Moradia; Segurança pessoal); 2) Fundamentos de Bem-Estar (Acesso ao conhecimento básico; Acesso à informação e comunicação; Saúde e bem-estar; Sustentabilidade dos ecossistemas); e, 3) Oportunidades (Direitos individuais; Liberdades e escolhas individuais; Tolerância e inclusão; Acesso à educação superior).

A análise do Sumário Executivo do Índice de Progresso Social 2014 de autoria de Michael E. Porter e Scott Stern com Michael Green disponível no website <http://www.socialprogressimperative.org/system/resources/W1siZiIsIjIwMTQvMDgvMjEvMDEvNTcvMDYvMTYzL1NQSV8yMDE0X0VYRUNVVElWRV9TVU1NQVJZX0ZpbmFsX1BPUlQucGRmIl1d/SPI-2014-EXECUTIVE-SUMMARY_Final-PORT.pdf> permite constatar que algumas das maiores economias do mundo não se saíram tão bem no ranking de progresso social, como a Alemanha (12° lugar), o Reino Unido (13°), o Japão (14°), os Estados Unidos (16°) e a França (20°). O Índice de Progresso Social nos permite, pela primeira vez, avaliar a eficácia com a qual o sucesso econômico de um país transforma-se em progresso social, e vice-versa. O Sumário Executivo do Índice de Progresso Social 2014 demonstra que o desenvolvimento econômico por si só não é suficiente para assegurar o progresso social.

Os 10 países de maior Índice de Progresso Social em 2015 são, pela ordem, os seguintes: 1) Noruega; 2) Suécia; 3) Suíça; 4) Islândia; 5) Nova Zelândia; 6) Canadá; 7) Finlândia; 8) Dinamarca; 9) Holanda; e, 10) Austrália (Ver o artigo Os 10 países onde se vive melhor independentemente do seu PIB disponível no website <http://www.greenme.com.br/viver/costume-e-sociedade/1693-os-10-paises-onde-se-vive-melhor-independentemente-do-seu-pib>).  O Brasil, por exemplo, é o 42° país no Índice de Progresso Social apesar de ter um PIB situado entre os 10 maiores do mundo. O Brasil é o 74° país quanto às Necessidades Humanas Básicas, é o 30° em Fundamentos de Bem-estar e é o 32º na dimensão Oportunidades. É cada vez mais evidente que o modelo de desenvolvimento do Brasil deixa a desejar do ponto de vista do progresso social. Percebe-se no ranking de progresso social que, entre os 10 países de maior progresso social, 5 deles são países da social democracia escandinava.

Os elevados índices de progresso social dos países nórdicos ou escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega, Islândia e Finlândia) resultam do fato de utilizarem um modelo de social democracia exemplar. O modelo nórdico ou escandinavo de social democracia poderia ser mais bem descrito como uma espécie de meio-termo entre capitalismo e socialismo. Não é nem totalmente capitalista nem totalmente socialista, sendo a tentativa de fundir os elementos mais desejáveis de ambos em um sistema “híbrido”. Em 2013, a revista The Economist declarou que os países nórdicos ou escandinavos são provavelmente os mais bem governados do mundo. O relatório World Happiness Report 2013 da ONU mostra que as nações mais felizes estão concentradas no Norte da Europa, com a Dinamarca no topo da lista. Os nórdicos possuem a mais alta classificação no PIB real per capita, a maior expectativa de vida saudável, a maior liberdade de fazer escolhas na vida e a maior generosidade.

Entre os países escandinavos ou nórdicos, a Noruega é o mais próspero do mundo, com o Estado do Bem-Estar Social caracterizado por muita igualdade e muita justiça social. Na Noruega, não prospera a desigualdade, o egoísmo, o individualismo caracterizadores do liberalismo e do neoliberalismo. Há 100 anos, a Noruega passou da condição de um dos países mais pobres da Europa, convivendo com o gelo e a escuridão por metade do ano, para ser sinônimo de riqueza e justiça social com um PIB per capita de US$ 100 mil. A Noruega prioriza gastos com educação que é garantida para toda a população. Em 30 anos, os noruegueses reduziram suas horas de trabalho em 270 horas, ganhando mais de dez dias de férias ao ano, e parte significativa dos trabalhadores já consegue trabalhar apenas quatro dias na semana. Segundo a ONU, jamais uma sociedade atingiu nível de desenvolvimento humano igual ao de Oslo, capital da Noruega. Além disso, a Noruega traduziu petróleo em prosperidade e igualdade (Ver o texto Noruega, um paraíso com muito Estado Social, serviços públicos e impostos no website <http://blogdotarso.com/2014/04/13/noruega-um-paraiso-com-muito-estado-social-servicos-publicos-e-impostos/>).

Mesmo em uma era de austeridade e crise global, o sistema do Estado de Bem-Estar Social na Noruega se manteve intacto, com salário mínimo de US$ 4,8 mil (cerca de R$ 14 mil) e o desemprego é de 2%. A Noruega foi o país que menos sentiu a crise mundial que eclodiu em 2008 nos Estados Unidos. Na Noruega, os sindicatos negociam a cada ano seus salários, dependendo das necessidades do setor exportador e para garantir que o produto nacional continue competitivo no mercado global. Nas eleições da Noruega os partidos políticos prometem não cortar impostos. No Estado de Bem-Estar Social da Noruega os homens cuidam de seus bebês e a cada ano o governo destina 2,8% do PIB para apoiar famílias em tudo que precisam para ter filhos. Os pais que decidem não levar as crianças para creches recebem, a cada mês, um cheque de US$ 200 para ajudar nos gastos. Na Noruega a carga tributária atinge 42% sendo maior do que no Brasil. Lá existe consenso de que o valor é justo para manter o sistema. O Estado paga do berçário ao enterro, financia estudantes e até banca férias. O modelo de sociedade norueguês é o mínimo que se espera para uma sociedade justa. O resto é barbárie (Ver o texto Noruega, um paraíso com muito Estado Social, serviços públicos e impostos no website <http://blogdotarso.com/2014/04/13/noruega-um-paraiso-com-muito-estado-social-servicos-publicos-e-impostos/>).

A Escandinávia é o berço do modelo mais igualitário que o capitalismo já conheceu. Sua origem remonta à Suécia dos anos 1930, mais precisamente há 80 anos, quando se concretizava a hegemonia social democrata no governo do país nórdico, dando início a uma série de reformas sociais e econômicas que inauguraria um novo tipo de capitalismo, em oposição ao liberalismo das décadas anteriores cujo ato final foi a Grande Depressão de 1929. Nascia então o chamado modelo escandinavo, que rapidamente ultrapassaria as fronteiras suecas para se tornar influente no norte europeu, mas também uma referência importante na formulação de políticas econômicas heterodoxas (progressistas) em todo o planeta. O sucesso deste modelo se deveu à combinação de um amplo Estado de Bem-Estar Social com rígidos mecanismos de regulação das forças de mercado, capaz de colocar a economia em uma trajetória dinâmica, ao mesmo tempo em que alcançava os melhores indicadores de bem-estar social entre países capitalistas.

Um indicador importante relacionado com o progresso social diz respeito à concentração da riqueza das pessoas e dos países. O artigo sob o título Quem são as 62 pessoas cuja riqueza equivale à de metade do mundo, disponível no website <http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/01/quem-sao-as-62-pessoas-cuja-riqueza-equivale-a-de-metade-do-mundo.html>, informa que 1% da população mais rica do mundo já detém tanta riqueza quanto o resto dos habitantes do planeta e que as 62 pessoas mais ricas do mundo têm tanto dinheiro e bens quanto metade da população mundial. A disparidade de riqueza entre os habitantes do planeta também se verifica entre os países do mundo. 14 países do mundo entre 196 detêm 50,7% do PIB mundial (US$ 74,91 trilhões). Segundo o Almanaque Abril 2015 estes 14 países são os ricos países capitalistas centrais (Estados Unidos, Japão, Alemanha,  França,  Reino Unido,  Itália, Canadá, Austrália, Holanda, Suíça, Suécia, Noruega, Bélgica, Áustria e Nova Zelândia). Vivemos, portanto, em um mundo cuja característica marcante é a excessiva concentração da riqueza em poucas mãos e em poucos países. Esta característica é inerente ao capitalismo.

Foi a social democracia construída até hoje nos países escandinavos o único modelo de sociedade que permitiu avanços econômicos, sociais e políticos simultâneos com o Estado atuando como mediador dos conflitos entre os interesses do capital e da Sociedade Civil. Não é por acaso que os países escandinavos, além de apresentarem grandes êxitos econômicos e sociais, são líderes em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) no mundo. Diferentemente, do liberalismo que predominou no mundo até 1929 e do neoliberalismo a partir de 1990 onde o Estado está sempre a serviço do capital e a Sociedade Civil é marginalizada, e do socialismo onde o Estado está a serviço de um partido ou de um grupo no poder e a Sociedade Civil é, também, marginalizada, a social democracia dos países escandinavos evitou a ocorrência dos excessos do liberalismo, do socialismo e do neoliberalismo.

Apesar do grande sucesso da social democracia praticada na Escandinávia, a social democracia do futuro deveria resultar do aperfeiçoamento do modelo atual que operaria com um tripé estruturado com base em um Estado neutro, Sociedade Civil Organizada ativa e Setor Produtivo (estatal e privado) eficiente e eficaz. O Estado neutro buscaria compatibilizar os interesses do Setor Produtivo (estatal e privado) com os da Sociedade Civil mediando seus conflitos em várias instâncias dos poderes executivo e legislativo que, quando não se obtém o consenso, a decisão final ficaria a cargo da população que decidiria democraticamente através de plebiscito e/ou referendo. Na nova social democracia, não deveria ser permitida a ação de grupos monopolistas e cartéis privados na economia. Empresas privadas só atuariam em setores econômicos onde houvesse competição. Empresas estatais ou de economia mista ocupariam os setores econômicos onde não fosse possível haver competição.

*Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016).  Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

COMO PROMOVER O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NO BRASIL

COMO PROMOVER O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO NO BRASIL

Fernando Alcoforado *

O progresso científico e tecnológico tem, comumente, como indicador de seu avanço o número de patentes registradas. No entanto, a verdadeira medida do progresso científico e tecnológico deveria considerar o aumento da produtividade proporcionada por um produto/serviço, o baixo custo na obtenção dos produtos e serviços, a capacidade de resposta ou adaptabilidade do produto ou serviço às mudanças, a durabilidade do produto/ serviço ou sua permanência no tempo, as características técnicas do produto/serviço para assegurar sua eficácia, a segurança física das pessoas e usuários em relação aos produtos/serviços, o desempenho do produto/serviço em relação ao cliente e/ou sociedade (fazer a coisa certa do jeito certo) e a ética com o cumprimento de normas, regulamentos, leis e códigos de conduta. Estes indicadores permitem avaliar se o avanço científico e tecnológico contribuirá ou não para o bem-estar da humanidade.

A existência de um sistema eficaz de ciência, tecnologia e inovação representa um fator-chave na promoção do desenvolvimento econômico e social e da sustentabilidade ambiental de um país ou de uma região. Segundo Joseph Schumpeter (The theory of economic development. USA: Newbrunswich/London-VK:Transation Publishers, 2000), o processo de desenvolvimento é identificado com a criação de inovações. Para Schumpeter, desenvolvimento consiste em utilizar recursos de uma maneira diferente, em fazer coisas novas com eles. Para Schumpeter, o crescimento não é desenvolvimento e sim acumulação de fatores de produção (terra, capital, trabalho). Por outro lado, inovação diz respeito a novas ferramentas, novas formas de organização da atividade produtiva que vão permitir a otimização dos esforços humanos e proporcionar o aumento da produtividade e a acumulação do capital nos setores agrícola, industrial e de serviços. Neste sentido, o sistema de ciência, tecnologia e inovação deve contribuir na promoção e incentivo da inovação de processos e produtos para promover o desenvolvimento de um país ou uma região.

A palavra inovação foi introduzida pelo economista austríaco Joseph Schumpeter na sua obra Business Cycles publicada em 1939. Segundo Schumpeter, a economia sai de um estado de equilibrio e entra em um processo de expansão com o surgimento de alguma inovação que, do ponto de vista econômico,  altere consideravelmente as condições anteriores de equilíbrio. Em outra de suas obras Capitalismo, Socialismo e Democracia publicado em 1942, Schumpeter descreve o processo de inovação como destruição criativa. Como exemplos de inovações que alteram o estado de equilíbrio no ambiente econômico temos a introdução de um novo produto ou serviço no mercado, a descoberta de um novo método de produção ou de comercialização de mercadorias, a conquista de novas fontes de matérias-primas, e, por fim, a alteração da estrutura de mercado vigente, como a quebra de um monopólio. A introdução de uma inovação no sistema econômico é chamada por Schumpeter de ato empreendedor, realizada pelo empresário empreendedor, visando a obtenção de um lucro.

No capitalismo, uma empresa para ter sucesso deve ser competitiva. A competitividade e a inovação estão estreitamente ligadas, pelo que então é de todo interesse de uma empresa ser inovadora para aumentar seu poder de competitividade. O ambiente empresarial deixa nos dias de hoje de ser local para ser global com a integração do mercado mundial, e só os mais fortes sobrevivem. A gestão empresarial deve ter a capacidade de criar vantagens competitivas, não só única, mas também de difícil replicação pelos concorrentes. A inovação por força da competitividade ou estratégia cria um novo mundo de oportunidades, que leva as empresas a serem sustentáveis a longo prazo. Inovação significa em síntese novidade. A palavra se refere a uma idéia, método ou objeto que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores. Hoje, a palavra inovação é invenção que chega no mercado.  Inovação pode ser também definida como fazer mais com menos recursos, por permitir ganhos de eficiência em processos, quer produtivos quer administrativos ou financeiros, quer na prestação de serviços. A inovação quando cria aumentos de competitividade pode ser considerada um fator fundamental no crescimento econômico de uma sociedade.

Os tipos de inovação são os seguintes: a) Inovação do produto: introdução no mercado de novos ou melhoria de produtos ou serviços. Inclui alterações significativas nas suas especificações técnicas, componentes, materiais, software incorporado, interface com o utilizador ou outras características funcionais; b) Inovação do processo: implementação de novos ou melhoria de processos de produção ou logística de bens ou serviços. Inclui alterações significativas de técnicas, equipamentos ou software; c) Inovação organizacional: implementação de novos métodos organizacionais na prática do negócio, organização do trabalho e/ou relações externas; e, d) Inovação de marketing: implementação de novos métodos de marketing, envolvendo melhorias significativas no design do produto ou embalagem, preço, distribuição e promoção. A inovação tanto pode ocorrer por meio de uma ação perfeitamente planejada quanto por simples acaso. No entanto, na prática, verifica-se que poucas inovações surgem do acaso. A maior parte das inovações, em especial as mais bem-sucedidas, resultam de uma busca consciente e intencional de oportunidades para inovar, dentro e fora da empresa.

A inovação é fundamental, pois através dela as organizações tornam-se capazes de gerar riqueza contínua e, assim manterem-se ou tornarem-se competitivas nos seus mercados. Contudo, na maioria dos casos, as empresas usam os concorrentes como base de referência para as suas próprias iniciativas de inovação. Com isso, as estratégias competitivas tendem a ser muito parecidas dentro de um mesmo mercado e apenas a empresa que se afasta do grupo competitivo de empresas, consegue cumprir seu papel de aumento de competitividade e consequente geração de riqueza. As inovações podem ser classificadas em dois grandes grupos: a)     Inovação Radical ou de Ruptura. Este tipo de Inovação caracteriza-se pela incessante busca, por parte da organização que a leva a cabo, de ruptura e quebra de paradigmas; e, b)      Inovação Incremental ou Inovação por Processo de Melhoria Contínua caracteriza-se por uma busca de aperfeiçoamento constante e gradual. Por norma, as empresas bem geridas são excelentes no desenvolvimento das tecnologias incrementais.

Pesquisa com mais de 2,7 mil empresas americanas, europeias e asiáticas realizada pelo Boston Consulting Group (BCG) captou as estratégias de crescimento em meio à crise mundial de 2008. A maioria dos empresários reafirmou que a inovação permanece como sua prioridade estratégica. Mais ainda, mesmo considerando o contexto desfavorável, a maior parte dos entrevistados pretende ampliar seus gastos com inovação. Em jogo, está a compreensão de que a inovação não é utilizada ocasionalmente para melhorar um posicionamento de uma empresa no mercado. Para essas empresas, inovação é fruto de um processo permanente para aumentar e sustentar sua competitividade e garantir sua sobrevivência no mercado. O estudo do BCG destacou que as empresas mais ágeis aumentaram seu compromisso com a inovação como forma de enfrentar a desaceleração da demanda e elevar o grau de racionalização do investimento. É sempre bom lembrar que empresas líderes como a Apple, Nokia, Microsoft, Google e Samsung nasceram, cresceram e globalizaram seus negócios em momentos em que as condições não eram as mais favoráveis.

A dependência da indústria brasileira não é só de capital, mas também de tecnologia estrangeira. O Brasil ocupa o 43° lugar no ranking mundial de tecnologia da ONU, o que atinge diretamente o desempenho industrial do país. A situação brasileira é desvantajosa porque, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, têm 800 mil cientistas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento dos quais 81% estão nas empresas, 4% no governo e 15% em instituições de ensino superior, o Brasil possui apenas 137 mil cientistas dos quais 65% dos pesquisadores estão nas universidades, 27% nas empresas e 8% no governo. Estes números mostram que, ao contrário dos Estados Unidos, a contribuição das empresas em P&D no Brasil é muito pequena.

Um aspecto importante a considerar é a de que é ridículo falar em inovação tecnológica no Brasil com a indústria desnacionalizada e com os seus centros das decisões sobre produção e mercados, situados no exterior, como é o caso da indústria brasileira. Tudo isto explica porque o Brasil continua sendo um dos países menos inovadores do mundo. A indústria desnacionalizada é fator determinante para o Brasil ser um país que investe pouco em pesquisa, menos de 1 % do seu PIB, enquanto a maioria dos países industrializados está no patamar médio de 3%. O Brasil investe pouco em educação, algo como 4,5% do PIB, enquanto nos países desenvolvidos esse índice chega a 7% ou mais. Além disso, o Brasil ainda tem cerca de 10% de sua população analfabeta, sendo que, dos que leem mais de 30% não sabe interpretar o que leram em uma simples matéria de jornal. São os analfabetos funcionais. Enquanto nos países desenvolvidos esse índice é zero.

No Brasil, a ação governamental é bastante débil no desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação pelo fato de não haver uma política industrial que aponte soluções eficazes visando a redução permanente dos custos de produção da indústria no Brasil frente aos países asiáticos, especialmente a China, que só pode ocorrer de quatro formas: (1) redução do Custo Brasil com a queda da carga tributária e a melhoria da infraestrutura logística do Brasil; (2) aumento de produtividade da indústria com a elevação de seus níveis de eficiência e eficácia e fortalecimento de suas cadeias produtivas; (3) desvalorização do real com restrição à entrada de dólares ou a adoção do câmbio fixo; e (4) desoneração seletiva e permanente da indústria com a redução da carga tributária nela incidente.

Estas soluções deveriam ser complementadas com a adoção de medidas voltadas para: 1) a superação dos gigantescos problemas da educação do Brasil em todos os níveis tendo como objetivo o aumento da “massa crítica” do País; 2) o desenvolvimento dos recursos de conhecimento adotando programas para implantação de centros de P & D, fortalecimento das universidades, aquisição de tecnologia e atração de cérebros do exterior; 3) a adequada dotação de recursos de infraestrutura estabelecendo programas eficazes de eliminação dos gargalos logísticos existentes; 4) o incentivo às ligações entre as cadeias produtivas das empresas e seus fornecedores com a eliminação de lacunas existentes; e, 5) o combate à competição predatória dos produtos importados com a restrição ou limitação de sua entrada no mercado nacional.

Sem a adoção dessas medidas, poderá ocorrer a quebradeira de amplos setores industriais, a desindustrialização e desnacionalização da economia brasileira. A desnacionalização da economia brasileira é evidenciada quando se observa que das  50 maiores empresas brasileiras, 26 são estrangeiras, segundo o Censo do Capital estrangeiro no Brasil. Mais da metade das empresas brasileiras de setores de ponta (automobilístico, aeronáutica, eletroeletrônico, informática, farmacêutico, telecomunicações, agronegócio e minérios) estão nas mãos do capital estrangeiro. O capital estrangeiro está presente em 17.605 empresas brasileiras que respondem por 63% do Produto Interno Bruto (PIB), e tem o controle de 36%  do setor bancário e possui 25% das ações do Bradesco e 20% das ações do Banco do Brasil.

*Fernando Alcoforado, 74, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

OS DESAFIOS DA ENGENHARIA BRASILEIRA NA ERA CONTEMPORÂNEA  

OS DESAFIOS DA ENGENHARIA BRASILEIRA NA ERA CONTEMPORÂNEA  

Fernando Alcoforado*

No Dia do Engenheiro no Brasil comemorado em 11 de dezembro, é importante fazer uma reflexão sobre a contribuição da Engenharia ao progresso da humanidade e apontar seus desafios na era contemporânea no Brasil. Desde os primórdios da humanidade, muita gente se ocupou de diversas tarefas que hoje são atribuições do engenheiro, e estão aí para provar as incontáveis e magníficas obras de Engenharia da Antiguidade, como o Farol de Alexandria, as Pirâmides do Egito, os Jardins Suspensos da Babilônia, a Acrópole e o Partenon de Atenas, os antigos aquedutos romanos, a Via Ápia, o Coliseu de Roma, Teotihuacán no México, as Pirâmides dos Maias, Incas e Astecas e a Grande Muralha da China, entre muitas outras obras. Desde a Antiguidade até o século XV, as obras de engenharia foram muito mais fruto do empirismo e da intuição do que do cálculo e de uma verdadeira engenharia. A investigação científica, inclusive nas ciências físicas e matemáticas, era quase mera especulação, em geral sem ter como alvo aplicações práticas. Havia, quando muito, alguma aplicação com finalidades militares.

Leonardo da Vinci e Galileu Galileu, nos séculos XV e XVII, por exemplo, podem ser considerados os precursores da Engenharia de base científica porque o que eles fizeram era regido por leis físicas e matemáticas. A Engenharia, compreendida como a arte de fazer, consiste em aplicar conhecimentos científicos e empíricos à criação de estruturas, processos e dispositivos, que são utilizados para converter recursos naturais em formas adequadas ao atendimento das necessidades humanas. A Engenharia tem sido utilizada ao longo da história da humanidade como um meio para a conquista de melhores condições de vida para a sociedade em todos os países do mundo e também para fins militares. A Engenharia é o meio através do qual as pessoas podem adquirir condições para habitar melhor, se transportar com mais rapidez, adquirir conforto e segurança, ter acesso a alimentos mais nutritivos e saudáveis, etc. O bom funcionamento da Engenharia, portanto, não é de interesse apenas dos profissionais e empresários do setor. É de interesse de toda a sociedade, sendo também sinônimo de desenvolvimento. A Engenharia é, em suma, sinônimo de progresso técnico.

É sabido que a Engenharia está presente em todo o setor produtivo, a saber: nas fábricas, nos canteiros de obras habitacionais e de infraestrutura, nas universidades, nos laboratórios científicos, nos centros de pesquisas tecnológicas, nos transportes, na geração de energia, nas comunicações, na produção de alimentos, entre outros empreendimentos. As grandes mudanças que vêm ocorrendo na vida das pessoas, no mundo moderno, foram geradas pela tecnologia que é alimentada pelo conhecimento acumulado e os grandes investimentos em pesquisa e inovação. A humanidade precisa da Engenharia porque é ela que transforma o conhecimento acumulado em universidades e centros de pesquisa, públicas e privadas, em produtos e serviços disponibilizados à sociedade.

A transformação do conhecimento produzido em laboratórios por profissionais de várias áreas, inclusive engenheiros, cabe aos engenheiros projetar e realizar. Não é à toa que em todas as definições da engenharia, e são muitas, encontramos as palavras “aplicação prática de princípios científicos visando à transformação da natureza com economia de recursos”. A Engenharia deve ser entendida, portanto, como uma cultura, aberta para a sociedade, ativa na promoção de seu desenvolvimento procurando como propósito a melhor qualidade de vida. Como o desenvolvimento tecnológico depende fundamentalmente da capacidade em Engenharia, pode-se afirmar que educação, ciência, engenharia e tecnologia estão intimamente relacionadas. A Engenharia é estratégica para o progresso da humanidade.

Modernamente, são inúmeros os empreendimentos no Brasil e no mundo que contaram e contam com o decisivo apoio da Engenharia tais como as gigantescas usinas hidrelétricas de Três Gargantas na China e Itaipu no Brasil/Paraguai, edifícios como o Empire State Building em New York, o Capital Gate na cidade de Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos e o Kingdom Tower, ainda em fase de projeto, que será construído na cidade de Jeddah, Arábia Saudita, que deve possuir 275 andares quando estiver pronto, atingindo a incrível marca dos 1,6 mil metros de altura, pontes como a mais longa do mundo sobre o mar de 36,48 quilômetros construída na cidade litorânea de Qingdao na China e a Rio-Niterói no Brasil, grandes estádios de futebol, shopping-centers, aeroportos, ferrovias, rodovias e viadutos, navios transatlânticos, navios superpetroleiros e supergraneleiros, aviões a jato, foguetes espaciais, entre outros.

Ao longo da história da Engenharia brasileira tem sido grande o número de engenheiros e empresas, das mais diversas áreas de atividades, que se têm se destacado pela criatividade e pioneirismo das soluções adotadas nos projetos e nas obras que executaram. Da época da instalação das grandes siderúrgicas a partir da industrialização na década de 1930 durante o governo Getúlio Vargas, que alteraram o modelo e as possibilidades de crescimento do País, da fase da abertura dos eixos rodoviários de penetração, da construção de Brasília, na ação desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e da construção das grandes hidrelétricas a partir da década de 1950, até o completo domínio da tecnologia de exploração de petróleo “off shore” na década de 1990, muitas empresas nacionais e muitos engenheiros ajudaram a modernizar e a desenvolver o Brasil.

O Brasil é plenamente desenvolvido em diferentes setores de Engenharia. Da construção de estradas ao setor energético tudo é possível de ser projetado e construído no Brasil. Em alguns setores, inclusive, o Brasil é referência mundial, como é o caso dos programas ligados ao Proálcool e biodiesel, à exploração de petróleo em águas profundas, construções de grandes hidroelétricas, como Itaipu, a maior em operação até bem pouco tempo, projetada, construída e montada por empresas brasileiras. Os engenheiros e empresas de engenharia colaboraram decisivamente para desencadear o processo de modernização do País. É importante destacar também os administradores públicos engenheiros que tiveram larga visão e contribuíram para materializar ousados projetos de infraestrutura de energia, transportes e comunicações implantados no Brasil nos últimos 60 anos. Cabe lugar de relevo, também, os pioneiros na fabricação de máquinas e equipamentos, além de bens de capital e fornecedores de insumos que ajudaram a proporcionar extraordinário impulso à Engenharia e à Construção brasileiras. A Engenharia foi, portanto, responsável pela construção do Brasil moderno.

Apesar da enorme contribuição da engenharia brasileira à modernização do Brasil, ela precisa se fortalecer ainda mais para superar os desafios da era contemporânea visando contribuir para o progresso do País, destacando-se, entre eles, os seguintes: 1) a participação do Brasil na corrida à inovação tecnológica ao nível global; 2) a melhoria da qualidade da educação em geral no País e, em particular, dos atuais cursos de engenharia no Brasil; 3) a eliminação do déficit de engenheiros no Brasil; 4) o desmantelamento da engenharia consultiva do País; e, 5) o fortalecimento do Sistema CONFEA/CREA cujas fragilidades precisam ser superadas. Estas são as condições exigidas para o fortalecimento da engenharia brasileira. Não existem dúvidas de que, para se desenvolver, o Brasil tem que contar necessariamente com sua Engenharia e, com o melhor uso desta, alavancar seu progresso econômico e social e evitar a eterna dependência tecnológica em relação ao exterior.

Para a Engenharia brasileira elevar seu nível de contribuição ao progresso do Brasil, é preciso enfrentar o desafio de aumentar a participação do País na corrida à inovação ao nível global. A situação brasileira é desvantajosa quanto à inovação tecnológica porque, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, têm 800 mil cientistas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil possui apenas 137 mil cientistas. Outro aspecto a considerar é a de que é ridículo falar em inovação tecnológica no Brasil com a indústria desnacionalizada e com os seus centros das decisões sobre produção e mercados, situados no exterior, como é o caso da indústria brasileira. Tudo isto explica porque o Brasil continua sendo um dos países menos inovadores do mundo. A indústria desnacionalizada é fator determinante para o Brasil ser um país que investe pouco em pesquisa, menos de 1 % do seu PIB, enquanto a maioria dos países industrializados está no patamar médio de 3%. O Brasil investe pouco em educação, algo como 4,5% do PIB, enquanto nos países desenvolvidos esse índice chega a 7% ou mais.

Para a Engenharia brasileira elevar seu nível de contribuição ao progresso do Brasil, é preciso também enfrentar o desafio da melhoria da qualidade da educação dos atuais cursos de engenharia no Brasil que têm um número excessivo de especializações na graduação. Para superar este problema, os cursos de engenharia deveriam ser reestruturados visando formar o engenheiro básico, tal como o médico e o advogado, com a especialização contemplada na pós-graduação cujas atribuições seriam redefinidas pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) e pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CREA). Para contribuir para o progresso do Brasil, seria desejável que a formação do engenheiro do futuro fosse orientada no sentido de que o mesmo adquira uma visão totalizante das engenharias estabelecendo as relações entre as partes e o todo em seu conjunto ao contrário do que ocorre na atualidade que impõe o conhecimento fragmentado de acordo com as especialidades.

Para a Engenharia brasileira elevar seu nível de contribuição ao progresso do Brasil, é preciso também enfrentar o desafio da insuficiência de engenheiros no Brasil que, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), seria necessário formar 60 mil engenheiros por ano no Brasil para dar conta da demanda por engenheiros. Mas o que acontece no Brasil é que apenas 48 mil obtêm este diploma a cada ano. Uma das causas da insuficiência de engenheiros no Brasil resulta, entre outros fatores, da desistência ou evasão dos alunos durante o curso que é muito grande chegando a 60%. A evasão acontece no primeiro e no segundo ano principalmente pela formação deficiente em matemática e física do estudante no ensino médio que, em muitos casos, tem dificuldade para acompanhar o curso.  A luta pela melhoria do ensino médio no Brasil é essencial para enfrentar o problema da evasão nos cursos de engenharia. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) do governo federal estima que, em 2022, haverá a necessidade de 1,565 milhões de engenheiros em ocupações típicas o que significa dobrar a população de engenheiros em relação à situação atual.

Para a Engenharia brasileira elevar seu nível de contribuição ao progresso do Brasil, é preciso também enfrentar o desafio de evitar o desmantelamento da engenharia consultiva do País que ocorre devido ao baixo nível dos investimentos no aumento da capacidade produtiva do País, a desindustrialização e os problemas financeiros que afetam a Petrobras, principal contratante de serviços de consultoria. Tudo isto está levando ao sucateamento da engenharia brasileira e sua consequente incapacidade de colaborar com a execução das obras necessárias ao desenvolvimento do Brasil, sobretudo no campo da infraestrutura. É fundamental considerar que a engenharia consultiva é a base para o crescimento do país porque sem projetos bem feitos o Brasil não tem como crescer. Bons projetos e serviços de engenharia consultiva dependem fundamentalmente de equipes formadas por profissionais experientes no desenvolvimento de trabalhos nas mais diversas áreas abrangidas pelos setores de transportes, energia, telecomunicações, edificações, saneamento, entre várias outras as quais estão sendo desestruturadas. A situação atual contribui para a falta de projetos básicos e executivos competentemente elaborados e para o superfaturamento de obras atuando como um obstáculo para a infraestrutura do país. A superação desses problemas que afetam a engenharia brasileira precisa ser levada avante sem a qual comprometerá o futuro do Brasil.

Para a Engenharia brasileira elevar seu nível de contribuição ao progresso do Brasil, é preciso também enfrentar o desafio do fortalecimento do Sistema CONFEA/CREA cujas fragilidades precisam ser superadas. Estas fragilidades são as seguintes: 1) o Sistema CONFEA/CREA é uma autarquia do governo federal e, portanto, não é independente; 2) o Sistema CONFEA/CREA cumpre uma função meramente burocrática de fiscalização do exercício profissional; e, 3) o Sistema CONFEA/CREA é omisso na busca de solução para os grandes problemas nacionais, sobretudo no campo da educação, da infraestrutura e da ciência, tecnologia e inovação.

Por que não fazer com que o Sistema CONFEA/CREA passe a operar como a OAB que é, em verdade, entidade autônoma, porquanto autonomia e independência são características próprias dela? Para atuar com firmeza na defesa da engenharia nacional, o Sistema CONFEA/ CREA deveria se empenhar na luta pela melhoria da estrutura de ensino da engenharia e da educação em geral que contribuem para a insuficiência de engenheiros no País, bem como exercer rigorosa fiscalização na execução de obras públicas no Brasil para elevar seu nível de qualidade e combater a corrupção. Para contribuir na solução dos grandes problemas nacionais, sobretudo no campo da infraestrutura e da ciência, tecnologia e inovação, o sistema CONFEA/ CREA deveria ser independente do governo federal nos moldes da OAB e ser fortalecido para cumprir esta missão.

Estas são as condições para o soerguimento da engenharia no Brasil.

* Fernando Alcoforado, 74, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

OS CINCO GRANDES DESAFIOS DA ENGENHARIA BRASILEIRA NA ERA CONTEMPORÂNEA

OS CINCO GRANDES DESAFIOS DA ENGENHARIA BRASILEIRA NA ERA CONTEMPORÂNEA

Fernando Alcoforado*

Desde os primórdios da humanidade, muita gente se ocupou de diversas tarefas que hoje são atribuições do engenheiro, e estão aí para provar as incontáveis e magníficas obras de Engenharia da Antiguidade, como o Farol de Alexandria, as Pirâmides do Egito, os Jardins Suspensos da Babilônia, a Acrópole e o Partenon de Atenas, os antigos aquedutos romanos, a Via Ápia, o Coliseu de Roma, Teotihuacán no México, as Pirâmides dos Maias, Incas e Astecas e a Grande Muralha da China, entre muitas outras obras. Desde a Antiguidade até o século XV, as obras de engenharia foram muito mais fruto do empirismo e da intuição do que do cálculo e de uma verdadeira engenharia. A investigação científica, inclusive nas ciências físicas e matemáticas, era quase mera especulação, em geral sem ter como alvo aplicações práticas. Havia, quando muito, alguma aplicação com finalidades militares. Leonardo da Vinci e Galileu Galileu, nos séculos XV e XVII, por exemplo, podem ser considerados os precursores da Engenharia de base científica porque o que eles fizeram era regido por leis físicas e matemáticas.

A Engenharia, compreendida como a arte de fazer, consiste em aplicar conhecimentos científicos e empíricos à criação de estruturas, processos e dispositivos, que são utilizados para converter recursos naturais em formas adequadas ao atendimento das necessidades humanas. A Engenharia tem sido utilizada ao longo da história da humanidade como um meio para a conquista de melhores condições de vida para a sociedade em todos os países do mundo e também para fins militares. A Engenharia é o meio através do qual as pessoas podem adquirir condições para habitar melhor, se transportar com mais rapidez, adquirir conforto e segurança, ter acesso a alimentos mais nutritivos e saudáveis, etc. O bom funcionamento da Engenharia, portanto, não é de interesse apenas dos profissionais e empresários do setor. É de interesse de toda a sociedade, sendo também sinônimo de desenvolvimento. A Engenharia é, em suma, sinônimo de progresso técnico.

O nascimento da Engenharia moderna foi consequência de dois grandes acontecimentos que ocorreram na história da humanidade no século XVIII: a Revolução Industrial na Inglaterra e o movimento filosófico e cultural denominado de Iluminismo na França. Na medida em que se desenvolviam as ciências matemáticas e físicas, a Engenharia foi se estruturando, mas somente no século XVIII foi possível chegar-se a um conjunto sistemático e ordenado de doutrinas, que constituíram a primeira base teórica da Engenharia. A Engenharia moderna se caracteriza pela aplicação generalizada dos conhecimentos científicos à solução de problemas técnicos dedicando-se, basicamente, a problemas da mesma espécie que a engenharia do passado, porém, com a característica distinta e marcante que é a aplicação da ciência.

É sabido que a Engenharia está presente em todo o setor produtivo, a saber: nas fábricas, nos canteiros de obras habitacionais e de infraestrutura, nas universidades, nos laboratórios científicos, nos centros de pesquisas tecnológicas, nos transportes, na geração de energia, nas comunicações, na produção de alimentos, entre outros empreendimentos. As grandes mudanças que vêm ocorrendo na vida das pessoas, no mundo moderno, foram geradas pela tecnologia que é alimentada pelo conhecimento acumulado e os grandes investimentos em pesquisa e inovação. A humanidade precisa da Engenharia porque é ela que transforma o conhecimento acumulado em universidades e centros de pesquisa, públicas e privadas, em produtos e serviços disponibilizados à sociedade.

A transformação do conhecimento produzido em laboratórios por profissionais de várias áreas, inclusive engenheiros, cabe aos engenheiros projetar e realizar. Não é à toa que em todas as definições da engenharia, e são muitas, encontramos as palavras “aplicação prática de princípios científicos visando à transformação da natureza com economia de recursos”. A Engenharia deve ser entendida, portanto, como uma cultura, aberta para a sociedade, ativa na promoção de seu desenvolvimento procurando como propósito a melhor qualidade de vida. Como o desenvolvimento tecnológico depende fundamentalmente da capacidade em Engenharia, pode-se afirmar que educação, ciência, engenharia e tecnologia estão intimamente relacionadas. A Engenharia é estratégica para o progresso da humanidade.

Modernamente, são inúmeros os empreendimentos no Brasil e no mundo que contaram e contam com o decisivo apoio da Engenharia tais como as gigantescas usinas hidrelétricas de Três Gargantas na China e Itaipu no Brasil/Paraguai, edifícios como o Empire State Building em New York, o Capital Gate na cidade de Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos e o Kingdom Tower, ainda em fase de projeto, que será construído na cidade de Jeddah, Arábia Saudita, que deve possuir 275 andares quando estiver pronto, atingindo a incrível marca dos 1,6 mil metros de altura, pontes como a mais longa do mundo sobre o mar de 36,48 quilômetros construída na cidade litorânea de Qingdao na China e a Rio-Niterói no Brasil, grandes estádios de futebol, shopping-centers, aeroportos, ferrovias, rodovias e viadutos, navios transatlânticos, navios superpetroleiros e supergraneleiros, aviões a jato, foguetes espaciais, entre outros.

Ao longo da história da Engenharia brasileira tem sido grande o número de engenheiros e empresas, das mais diversas áreas de atividades, que têm se destacado pela criatividade e pioneirismo das soluções adotadas nos projetos e nas obras que executaram. Da época da instalação das grandes siderúrgicas a partir da industrialização realizada na década de 1930 durante o governo Getúlio Vargas, que alteraram o modelo e as possibilidades de crescimento do País, da fase da abertura dos eixos rodoviários de penetração, da construção de Brasília, na ação desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e da construção das grandes hidrelétricas a partir da década de 1950, até o completo domínio da tecnologia de exploração de petróleo “off shore” na década de 1990 pela Petrobras, muitas empresas nacionais e muitos engenheiros ajudaram a modernizar e a desenvolver o Brasil.

O Brasil é plenamente desenvolvido em diferentes setores de Engenharia. Da construção de estradas ao setor energético tudo é possível de ser projetado e construído no Brasil. Em alguns setores, inclusive, o Brasil é referência mundial, como é o caso dos programas ligados ao Proálcool e biodiesel, à exploração de petróleo em águas profundas, construções de grandes hidroelétricas, como Itaipu, a maior em operação até bem pouco tempo, projetada, construída e montada por empresas brasileiras. Os engenheiros e empresas de engenharia colaboraram decisivamente para desencadear o processo de modernização do País. É importante destacar também os engenheiros administradores públicos que tiveram larga visão e contribuíram para materializar ousados projetos de infraestrutura de energia, transportes e comunicações implantados no Brasil nos últimos 60 anos. Cabe lugar de relevo, também, os pioneiros na fabricação de máquinas e equipamentos, além de bens de capital e fornecedores de insumos que ajudaram a proporcionar extraordinário impulso à Engenharia e à Construção brasileiras. A Engenharia foi, portanto, responsável pela construção do Brasil moderno.

Apesar da enorme contribuição da engenharia brasileira à modernização do Brasil, ela precisa se fortalecer ainda mais para superar os desafios da era contemporânea visando contribuir para o progresso do País, destacando-se, entre eles: 1) a participação do Brasil na corrida à inovação tecnológica ao nível global; 2) a melhoria da qualidade da educação em geral no País e, em particular, dos atuais cursos de engenharia no Brasil; 3) a eliminação do déficit de engenheiros no Brasil; 4) a luta contra a ameaça de sucateamento da engenharia brasileira; e, 5) o fortalecimento do Sistema CONFEA/CREA cujas fragilidades precisam ser superadas.

O primeiro grande desafio a ser enfrentado pela Engenharia brasileira na era contemporânea consiste em elevar a participação do Brasil na corrida à inovação ao nível global. Uma das ações muito diretamente ligadas à Engenharia diz respeito à inovação tecnológica que pode ser definida como a produção de algo novo que se destina a melhorar ou substituir produtos e serviços utilizados pelo homem. São exemplos de inovações, a máquina a vapor, o trem, o avião, a luz elétrica, o telefone, a internet, produtos farmacêuticos a partir da genética e, recentemente, a nanotecnologia. Hoje, a inovação se desenvolve em milhares de laboratórios de pesquisa equipados com modernos e sofisticados instrumentos e povoados de pesquisadores e técnicos altamente qualificados, sejam de empresas, sejam públicos ou privados.

A situação brasileira é desvantajosa quanto à inovação tecnológica porque, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, têm 800 mil cientistas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil possui apenas 137 mil cientistas. Outro aspecto a considerar é a de que é ridículo falar em inovação tecnológica no Brasil com a indústria desnacionalizada e com os seus centros das decisões sobre produção e mercados, situados no exterior, como é o caso da indústria brasileira. Tudo isto explica porque o Brasil continua sendo um dos países menos inovadores do mundo. A indústria desnacionalizada é fator determinante para o Brasil ser um país que investe pouco em pesquisa, menos de 1 % do seu PIB, enquanto a maioria dos países industrializados está no patamar médio de 3%. Segundo ranking da revista “Nature”, o Brasil é um dos países com menor eficiência no gasto com ciência. Ele figura em 50º entre 53 avaliados, atrás de países como Irã, Paquistão e Ucrânia. O Brasil, no quesito, só é melhor que Egito, Turquia e Malásia (Ver o site da Folha de S. Paulo <http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2014/11/1549183-gasto-brasileiro-com-ciencia-e-muito-pouco-eficiente-diz-nature.shtml>.

O segundo grande desafio a ser enfrentado pela Engenharia brasileira na era contemporânea consiste em promover a melhoria da qualidade da educação em geral no País e, em particular, dos atuais cursos de engenharia no Brasil que têm um número excessivo de especializações na graduação. Para superar este problema, os cursos de engenharia deveriam ser reestruturados visando formar o engenheiro básico com a especialização contemplada na pós-graduação cujas atribuições seriam redefinidas pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) e pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CREA). O futuro da Engenharia no Brasil depende bastante da formação que o engenheiro venha a ter nos anos futuros a ser ministrado pelas escolas de engenharia. Para contribuir para o progresso da humanidade, seria desejável que a formação do engenheiro do futuro fosse orientada no sentido de que o mesmo adquira uma visão totalizante das engenharias estabelecendo as relações entre as partes e o todo em seu conjunto ao contrário do que ocorre na atualidade que impõe o conhecimento fragmentado de acordo com as especialidades.

No momento atual, existe excessiva especialização das áreas de engenharia imposta pela era industrial. Esta excessiva proliferação de especializações produz engenheiros pouco adaptáveis à era atual, pós-industrial, que podem rapidamente tornarem-se obsoletos. Esta situação é desastrosa na era atual, onde a mudança permanente é a regra. Na era atual é extremamente recomendável formar um engenheiro básico, tal como o médico e o advogado, e especializá-lo de acordo com as necessidades profissionais. Para formar o engenheiro básico, deve haver a eliminação das atuais especializações na graduação e fazer com que estas sejam oferecidas nos cursos de pós-graduação. É preciso fazer, também, com que a educação continuada e a reciclagem sejam partes inseparáveis da vida profissional e não uma exceção como ocorre hoje.

O terceiro grande desafio a ser enfrentado pela Engenharia brasileira na era contemporânea consiste em eliminar a insuficiência de engenheiros no Brasil que, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), seria necessário formar 60 mil engenheiros por ano no Brasil para dar conta da demanda por engenheiros. Mas o que acontece no Brasil é que apenas 48 mil obtêm este diploma a cada ano. Uma das causas da insuficiência de engenheiros no Brasil resulta, entre outros fatores, da desistência ou evasão dos alunos durante o curso que é muito grande chegando a 60%. A evasão acontece no primeiro e no segundo ano principalmente pela formação deficiente em matemática e física do estudante no ensino médio que, em muitos casos, tem dificuldade para acompanhar o curso.  A luta pela melhoria do ensino médio no Brasil é essencial para enfrentar o problema da evasão nos cursos de engenharia.

Além da carência de engenheiros, o Brasil forma mais de 77% de engenheiros em apenas quatro especialidades: técnico industrial (339.822, ou 33,87% do total), engenheiro civil (201.290, 20,06%), engenheiro eletricista (122.066, 12,16%) e engenheiro mecânico e metalurgia (109.788, 10,94%). Com a concentração em poucas especialidades, o mercado fica ainda mais carente em outros nichos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) diagnosticou que o Brasil precisa, especialmente, de engenheiros de minas, de petróleo e gás, navais e de computação. O IPEA estima que, em 2022, haverá a necessidade de 1,565 milhões de engenheiros em ocupações típicas o que significa dobrar a população de engenheiros em relação à situação atual.

O quarto grande desafio a ser enfrentado pela Engenharia brasileira na era contemporânea consiste em superar a ameaça de sucateamento das grandes empresas de engenharia do País muitas delas envolvidas na roubalheira da Petrobras as quais poderão falir abrindo caminho para a penetração de empresas estrangeiras. As entidades representativas da engenharia brasileira sob a liderança do Sistema CONFEA/CREAs deveriam se articular nacionalmente no sentido de evitar a ocorrência deste desfecho. O quinto grande desafio a ser enfrentado pela Engenharia brasileira na era contemporânea consiste em fortalecer o Sistema CONFEA/CREA cujas fragilidades precisam ser superadas.

As fragilidades do Sistema CONFEA/CREA são as seguintes: 1) o Sistema CONFEA/CREA é uma autarquia do governo federal e, portanto, não é independente; 2) o Sistema CONFEA/CREA não atua com firmeza na defesa da engenharia nacional cumprindo uma função meramente burocrática de fiscalização do exercício profissional; e, 3) o Sistema CONFEA/CREA é omisso na busca de solução para os grandes problemas nacionais, sobretudo no campo da infraestrutura e da ciência, tecnologia e inovação. Além de se submeter à supervisão ministerial, o Sistema CONFEA/CREA está sujeito, no exercido de suas atividades, ao Tribunal de Contas da União – TCU que julga as contas dos administradores e aprecia, para fins de registro, a legalidade dos atos de admissão de pessoal, a qualquer título, na administração direta e indireta, excetuadas as nomeações para cargo de provimento em comissão.

Mesmo antes da Constituição de 1988, a jurisprudência já havia consagrado o entendimento de que os conselhos de fiscalização profissional eram autarquias obrigadas a prestarem contas aos Tribunais de Contas. A exceção ficou por conta da OAB. Em 1951, o extinto Tribunal Federal de Recurso, no recurso do Mandado de Segurança n.º 797, decidiu que os Conselhos Seccionais da OAB não precisavam prestar contas aos Tribunais de Contas. A OAB é, por consequência, a única entidade que pode ser utilizada como paradigma a ser utilizado para reestruturar a natureza jurídica do Sistema CONFEA/CREA. A Ordem dos Advogados do Brasil é, em verdade, entidade autônoma, porquanto autonomia e independência são características próprias dela. Todos os seus órgãos de direção são eleitos pelos advogados; e os seus componentes desempenham os seus deveres, sem remuneração de qualquer espécie.

Não tem a OAB nenhum objetivo econômico: executa apenas tarefa de natureza ética, cultural e profissional, como a de zelar pelo exercício probo e eficiente da advocacia. A argumentação acima é perfeitamente adequada ao Sistema CONFEA/CREA porque seus dirigentes são eleitos por seus pares; o patrimônio dos conselhos foi construído por recursos dos próprios profissionais; o custeio é bancado pelos inscritos; não há dotação, ajuda ou subvenção de qualquer espécie vinda do Estado; seus presidentes e conselheiros desempenham seus deveres, sem qualquer remuneração; não tem fins econômicos e, finalmente, desempenha tarefa de natureza ética, cultural e profissional. Por que não fazer com que o Sistema CONFEA/CREA passe a operar como a OAB?

A segunda grande fragilidade do Sistema CONFEA/ CREA diz respeito à sua omissão na defesa da engenharia nacional, sobretudo no momento atual em que se constata seu sucateamento. A Engenharia brasileira está sendo sucateada devido a três fatores. O primeiro deles diz respeito à precariedade do sistema de ensino no Brasil que impacta fortemente e negativamente na formação do engenheiro pela Universidade brasileira; o segundo concerne ao déficit de engenheiros para atender a demanda nacional; o terceiro se caracteriza pela execução de obras públicas de baixa qualidade por conta de projetos mal elaborados e falta de planejamento pelo governo federal; e, o quarto, diz respeito à ameaça de fechamento de inúmeras empresas de engenharia devido a seu envolvimento na roubalheira da Petrobras.

O Sistema CONFEA/ CREA deveria se empenhar na luta pela melhoria da estrutura de ensino da engenharia e da educação em geral que contribuem para a má formação de engenheiros e para a insuficiência de engenheiros no país, bem como exercer rigorosa fiscalização na execução de obras públicas no Brasil para elevar seu nível de qualidade evitar o sucateamento da engenharia brasileira resultante da ameaça de fechamento de inúmeras empresas de engenharia devido a seu envolvimento na roubalheira da Petrobras. A subordinação do Sistema CONFEA/ CREA como autarquia do governo federal faz com que ele se torne omisso no que diz respeito à luta pela solução dos problemas nacionais, especialmente no campo da educação, particularmente no ensino da engenharia, e da infraestrutura que se encontram completamente sucateadas há décadas e pela superação das fragilidades relativas ao sistema de ciência, tecnologia e inovação cuja ação governamental é bastante débil no Brasil. Um sistema CONFEA/ CREA independente nos moldes da OAB possibilitaria fortalecê-lo para lutar pelo soerguimento da engenharia nacional.

Lamentavelmente, o Brasil é essencialmente um país de baixo crescimento econômico graças ao modelo neoliberal implantado no País, de baixa escolaridade da mão de obra (oito anos de estudo em média) e de reduzida escala de produção de inovação frente aos demais países industrializados ou recém-industrializados. Embora o Brasil tenha capacidade de extrair petróleo de águas profundas, produzir navios e aviões, isso ainda é insuficiente para a dimensão das necessidades sociais e econômicas de nossa população. Para agravar ainda mais a situação, a tudo isto se soma o sucateamento da engenharia brasileira bastante comprometida com o envolvimento de inúmeras grandes empresas de engenharia na roubalheira da Petrobras e o enfraquecimento de nossa principal empresa estatal com a queda vertiginosa no seu valor de mercado. Para se desenvolver, o Brasil não pode abandonar a sua Engenharia e, com o melhor uso desta, deve alavancar seu progresso econômico e social e evitar a eterna dependência tecnológica em relação ao exterior.

* Fernando Alcoforado, 75, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

O ENGENHEIRO E O PROGRESSO HUMANO

O ENGENHEIRO E O PROGRESSO HUMANO

Fernando Alcoforado*

A profissão formal de engenheiro, isto é, uma pessoa diplomada e legalmente habilitada a exercer as múltiplas atividades da engenharia (civil, elétrica, mecânica, química, geologia, agrimensura, mecatrônica, etc.) é relativamente recente, podendo-se dizer que data da segunda metade do século XVIII. Antes dessa época, muita gente se ocupou de diversas tarefas que hoje são atribuições do engenheiro, e aí estão para provar as incontáveis e magníficas obras de engenharia desde a Antiguidade, como o Farol de Alexandria, os Jardins Suspensos da Babilônia, a Acrópole e o Partenon de Atenas, os antigos aquedutos romanos, a Via Ápia, o Coliseu de Roma, Teotihuacán no México, as Pirâmides do Egito, dos Maias, Incas e Astecas e a Grande Muralha da China, entre muitas outras obras. As obras de engenharia, desde a Antiguidade até o século XVIII, são muito mais fruto do empirismo e da intuição do que do cálculo e de uma verdadeira engenharia. Leonardo da Vinci e Galileu Galilei, nos séculos XV e XVII, por exemplo, podem ser considerados os precursores da engenharia de base científica porque o que eles fizeram era regido por leis físicas e matemáticas. Leonardo da Vinci fez a primeira tentativa de aplicar a estática para a determinação das forças atuando em uma estrutura simples, ou seja, a primeira aplicação da matemática à engenharia estrutural. Galileu Galilei publicou, em 1638, o famoso livro As Duas Novas Ciências, que trata, entre outros assuntos, da resistência de vigas e de pilares ou colunas, sendo assim o primeiro livro, em todo mundo, no campo da Resistência dos Materiais.

Na medida em que se desenvolviam as ciências matemáticas e físicas, a engenharia foi se estruturando, mas somente no século XVIII foi possível chegar-se a um conjunto sistemático e ordenado de doutrinas, que constituíram a primeira base teórica da Engenharia. A lei de Hooke, princípio básico da Resistência dos Materiais, é de 1660 e o Cálculo Infinitesimal foi desenvolvido por Newton e Leibniz em 1674. Em 1729, publica-se a primeira edição do livro La Science des Ingénieurs do engenheiro militar francês, General Belidor, que foi o primeiro livro em que se sistematizou o que havia até então na ciência do engenheiro. Os estudos de Bernouilli, de Euler e de Navier, que fundaram as bases da Hidrodinâmica e da Teoria das Estruturas, são de meados do século XVIII e início do XIX. Em 1795, funda-se em Paris a famosa École Polytechnique que se tornou o modelo de outras escolas de engenharia pelo mundo afora. Essa escola tinha o curso em três anos, onde professores de alto nível (Lagrange, Prony, Fourrier, Poisson, etc.) ensinavam as matérias básicas da engenharia, sendo os alunos depois encaminhados a outras escolas especializadas: Ponts et Chausseés, École des Mines, etc. A École Nationale des Ponts et Chaussés, fundada em Paris em 1747, parece ter sido o primeiro estabelecimento de ensino, em todo o mundo, onde se ministrou um curso regular de engenharia, e que diplomou profissionais com esse título.

O nascimento da engenharia moderna foi consequência de dois grandes acontecimentos que ocorreram na história da humanidade no século XVIII: a Revolução Industrial na Inglaterra e o movimento filosófico e cultural denominado de Iluminismo na França. A Revolução Industrial, com o aparecimento da máquina a vapor e de uma série de outras máquinas, forçou o desenvolvimento tecnológico e o estudo e pesquisa das ciências físicas e matemáticas, tendo em vista as suas aplicações práticas. O movimento do Iluminismo, consequência do Renascimento e das ideias de Descartes, libertou o espírito humano dos estreitos limites da escolástica tradicional e valorizou a observação da natureza, da experimentação, do estudo das ciências físicas e naturais e suas aplicações. É oportuno observar que, desde a Antiguidade até o século XVII, a investigação científica, inclusive nas ciências físicas e matemáticas, era quase mera especulação, em geral sem ter como alvo aplicações práticas. Havia, quando muito, alguma aplicação com finalidades militares. É importante destacar que a engenharia moderna nasceu também dentro dos Exércitos. A utilização da pólvora, o progresso da artilharia e a necessidade de realizar obras que fossem ao mesmo tempo sólidas e econômicas e, também, estradas, pontes e portos para fins militares, a partir do século XVII, passaram a exigir a presença de engenheiros militares para o seu planejamento e execução.

A formação do engenheiro do futuro a ser ministrado pelas escolas de engenharia deveria ser orientada no sentido de que o mesmo adquira uma visão totalizante das engenharias estabelecendo as relações entre as partes e o todo em seu conjunto ao contrário do que ocorre no Brasil na atualidade que impõe o conhecimento fragmentado de acordo com as especialidades (civil, mecânica, elétrica, química, minas, etc.). O engenheiro do futuro deveria ser preparado para valorizar os aspectos sociais (o ser humano) e ambientais (a natureza), além dos aspectos técnicos e econômicos, no exercício de suas atividades. O profissional da engenharia do futuro deveria ser preparado para assumir sua identidade com todos os seres humanos procurando não comprometer com suas atividades a existência da humanidade no planeta.

O engenheiro do futuro deveria aprender a incorporar as incertezas abordadas pelas várias áreas da ciência e a delinear estratégias que permitam a sociedade enfrentar os imprevistos, o inesperado. O engenheiro do futuro deveria adquirir a capacidade de fazer com que a Engenharia contribua para que as relações humanas no mundo saiam de seu estado bárbaro atual. Finalmente, o engenheiro do futuro deveria conceber a humanidade como uma comunidade planetária solidária. Esta proposta de Edgar Morin, apresentada em sua obra Os sete saberes necessários à educação do futuro (São Paulo: Editora Cortez, 2011), aplicada ao engenheiro do futuro representa a antítese do método adotado atualmente pelos engenheiros e empresas de engenharia no desenvolvimento de suas atividades quando, na elaboração de projetos, consideram exclusivamente os aspectos técnicos, incluindo uma margem de segurança para reduzir o risco de falha inesperada, e os econômicos visando a redução de custos e/ou a maximização dos lucros.

O método atualmente adotado   traduz uma visão eminentemente tecnocrática porque desconsidera os impactos negativos e os custos dos projetos do ponto de vista social e ambiental. É inadmissível elaborar, por exemplo, projetos industriais, energéticos, de transporte, etc. sem avaliar os problemas que os mesmos trazem para as populações residentes na área e os riscos para o meio ambiente. Na grade curricular dos cursos de engenharia ou na pós-graduação deveriam ser incorporadas disciplinas relacionadas com as ciências sociais e o meio ambiente, o que significa dizer que o engenheiro do futuro deve ser preparado para fazer com que o seu papel seja capaz de contribuir para o progresso humano. Sem esta abordagem, os engenheiros e as empresas de engenharia não contribuirão para o progresso da humanidade.

*Fernando Alcoforado, 72, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010) e Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) , entre outros.