POSSÍVEIS SOLUÇÕES PARA MITIGAR OS EFEITOS SOCIAIS NEGATIVOS DO AVANÇO TECNOLÓGICO

Fernando Alcoforado*

O avanço tecnológico com o uso crescente da inteligência artificial se constitui em ameaça à ascensão social dos trabalhadores, bem como pode colocar em xeque a existência do próprio sistema capitalista na medida em que o desemprego em massa contribuirá cada vez mais para a queda no consumo de bens e serviços. Esta situação contribuiria para o desemprego em massa dos trabalhadores manuais (blue-collar) e intelectuais (white-collar) em escalas nacional e mundial e para a cessação do processo de acumulação do capital sem o qual o sistema capitalista seria levado ao colapso e à convulsão social nos níveis nacional e global. Para fazer frente ao desemprego em massa, em longo prazo, os governos terão que rever a rede de segurança social atual e fazer com ela evolua para atender um possível contingente maior de pessoas desempregadas e ajudá-las a se reintegrarem em uma sociedade em que ocorrerá a substituição de seres humanos por máquinas nos sistema produtivos. Para incrementar a demanda de bens e serviços e evitar o colapso do sistema capitalista, as possíveis soluções que se apresentam são as que incentivariam a denominada Economia Criativa e a adoção de programa de Transferência de Renda.

O avanço tecnológico em curso sugere que vivenciamos uma transição que coloca enorme tensão sobre a economia e a sociedade. A educação convencional oferecida atualmente em vários países do mundo aos trabalhadores e estudantes que se preparam para entrar no mercado de trabalho é totalmente ineficaz. Em outras palavras, os sistemas de educação estão preparando trabalhadores para um mundo do trabalho que está desaparecendo ou não existe mais. Martin Ford, autor do livro Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future (Ascensão dos robôs: Tecnologia e Ameaça de um Futuro Sem Emprego, 2015), afirma que o problema é que muitas pessoas estão indo para o mercado de trabalho enquanto as máquinas estão expulsando as pessoas. O segredo para o futuro do trabalho em um mundo com o uso crescente da Inteligência Artificial está na adoção de novas medidas voltadas para a qualificação da mão-de-obra, que deverá saber utilizar a tecnologia como complemento, uma ferramenta, e não como um substituto de suas habilidades. Algumas funções são atribuídas a máquinas e sistemas inteligentes. Novas funções para os seres humanos surgem diante desse novo cenário. Compete aos planejadores dos sistemas de educação identificarem as novas funções para os seres humanos e realizarem uma ampla revolução no ensino em todos os níveis visando a qualificação dos professores e a estruturação das unidades de ensino para prepararem seus alunos para um mundo do trabalho em que terão que lidar com máquinas inteligentes.

Para adequar os trabalhadores a um mercado de trabalho caracterizado pela substituição de seres humanos por máquinas nos sistema produtivos, países como a Suíça e a Finlândia, por exemplo, já começaram a considerar ativamente esta nova realidade e iniciaram um processo de adequação de suas sociedades – que começou pela reformulação de seus sistemas educacionais, privilegiando o desenvolvimento da habilidade de metacognição (capacidade do ser humano de monitorar e autorregular os processos cognitivos, ou seja, a capacidade do ser humano de ter consciência de seus atos e pensamentos), domínio de idiomas (em especial da língua inglesa, pelo fato da maior parte do conhecimento humano estar registrado neste idioma) e um currículo baseado em Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática associado ao “método” grego de “arte liberal” por se entender que é uma maneira eficiente de adequar a forma de pensar para uma mentalidade mais direcionada à criação de propriedade intelectual, em que se destaca a conexão de conhecimentos – de forma mais abrangente – e a imaginação – para atuar criativamente na sociedade e gerar inovação (TIBAU, Marcelo. Inteligência Artificial e o mercado de trabalho. Disponível no website <http://www.updateordie.com/2016/10/08/inteligencia-artificial-e-o-mercado-de-trabalho/>).

Para incrementar a demanda de bens e serviços e evitar o colapso do sistema capitalista, as possíveis soluções que se apresentam são as que incentivariam a denominada Economia Criativa e a adoção de programa de Transferência de Renda. A questão que se coloca é se a Economia Criativa terá condições de compensar o desemprego em massa que as atividades produtivas em geral proporcionarão com o avanço tecnológico, especialmente da inteligência artificial. O Programa de Transferência de Renda através do qual o Estado proporcionaria renda às pessoas desempregadas seria adotado para compensar as insuficiências da Economia Criativa.

Artigo de Marisa Adán Gil sob o título Economia criativa é saída para o desemprego, diz especialista, disponível no website <http://revistapegn.globo.com/Empreendedorismo/noticia/2015/12/economia-criativa-e-saida-para-o-desemprego-diz-especialista.html>, informa que “uma das maneiras mais eficazes de gerar novos empregos é estimular a indústria criativa, segundo opinião de George Windsor, diretor de pesquisa da Nesta, organização sem fins lucrativos que tem como objetivo estimular os 12 setores da economia criativa no Reino Unido.  Na visão de Windsor, a criação de empregos ligados à criatividade tem enorme potencial para movimentar a economia. A indústria criativa agrega valor aos produtos de uma maneira que nenhum outro setor é capaz”. Segundo ele, há várias maneiras de gerar empregos ligados à economia do conhecimento: estimular a indústria de games; desenvolver núcleos criativos locais, que trabalhem com base nas tradições culturais de cada região; facilitar o crédito para setores criativos da economia; investir em educação voltada para o design e para a tecnologia. Caso o governo britânico abrace essas medidas, ele acredita ser possível criar 1 milhão de empregos no Reino Unido até 2030. Atualmente, a Economia Criativa é um dos setores de maior crescimento na economia mundial.

O artigo A economia criativa no mundo moderno, disponível no website <https://descola.org/drops/a-economia-criativa-no-mundo-moderno/>, informa que o termo “Economia Criativa” se refere a atividades com potencial socioeconômico que lidam com criatividade, conhecimento e informação. Para entendê-las, é preciso ter em mente que empresas deste seguimento combinam a criação, produção e a comercialização de bens criativos de natureza cultural e de inovação como Moda, Arte, Mídia Digital, Publicidade, Jornalismo, Fotografia e Arquitetura. Em comum, empresas da área dependem do talento e da criatividade para efetivamente existirem. Elas estão distribuídas em 13 diferentes áreas: 1) arquitetura; 2) publicidade; 3) design; 4) artes e antiguidades; 5) artesanato; 6) moda; 7) cinema e vídeo; 8) televisão; 9) editoração e publicações; 10) artes cênicas; 11) rádio; 12) softwares de lazer; e, 13) música.

Martin Ford afirma que em nossa economia e sociedade, as máquinas estão gradualmente passando por uma transição fundamental: elas se desenvolvem além do seu histórico papel como ferramenta e, em muitos casos, se tornando “trabalhadores autônomos”. Se aceitarmos a ideia de que é irrealista que mais investimento em educação e treinamento seja improvável de resolver o problema do desemprego e barrar a automação, Ford considera que a solução mais eficaz consiste na adoção de uma política de garantia de renda para os trabalhadores. Esta ideia não é nova. Friedrich August von Hayek, economista e filósofo austríaco, posteriormente naturalizado britânico, considerado um dos maiores representantes da Escola Austríaca de pensamento econômico, foi o poderoso proponente desta ideia quando publicou entre 1973 e 1979 sua obra Law, Legislation and Liberty. O programa neoliberal de transferência de renda dos governos Lula e Dilma Rousseff no Brasil é um exemplo da aplicação da política de garantia de renda de Hayek.

Além da necessidade de prover uma segurança básica líquida, Ford afirma que há um poderoso argumento para a política de garantia de renda porque o avanço tecnológico promove a desigualdade social e ameaça o consumo. A política de garantia de renda seria a estratégia que proporcionaria uma sobrevida ao moribundo sistema capitalista mundial. Competiria ao Estado cobrar imposto das empresas, sobretudo as de base tecnológica, para assegurar a prestação dos serviços públicos e possibilitar a adoção da política de garantia de renda à população desempregada. Se o incentivo à economia criativa e o programa de transferência de renda não forem bem sucedidos levará o mundo ao caos político, econômico e social nos planos nacional e mundial que acelerará o fim do capitalismo como sistema mundial em consequência de seus rendimentos decrescentes (queda tendencial do crescimento do PIB e da taxa de lucro mundiais).

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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