COMO ELIMINAR A GUERRA NO MUNDO

Fernando Alcoforado*

Vários são os países que podem se constituir em focos de eclosão de guerras no mundo destacando-se, entre eles, a Síria, Palestina, Israel, Irã e Coreia do Norte. A Síria é hoje o epicentro de uma batalha que reúne vários atores: as grandes potências regionais inimigas (Irã e Arábia Saudita) e os aliados históricos (os Estados Unidos aliados da Arábia Saudita e a Rússia aliada do Irã). O conflito sírio começou quando o presidente Bachar Al Assad lançou uma ofensiva contra os rebeldes do exército livre da Síria. Entretanto, outros atores entraram em cena, no seio do próprio movimento rebelde, seguidos pelos extremistas do Estado Islâmico (ISIS) e pelos curdos. Tornou-se claro que os interesses geopolíticos das partes envolvidas são muito diferentes.

Pode-se afirmar que a Síria tem uma importância estratégica fundamental porque é a última pedra do xadrez geopolítico existente na região cuja queda de Bachar Al Assad levaria ao cerco do Irã, possibilitando aos aliados ocidentais atingirem o território deste país pelo Mar Mediterrâneo e pelo Iraque que garantiria passagem para tropas aliadas atingirem fronteiras iranianas. A Síria, que faz fronteira com Israel, sempre foi importante no Oriente Médio e, sobretudo hoje, faz parte de um xadrez geopolítico muito delicado porque é um país aliado do Irã, junto com quem patrocina movimentos terroristas extremamente agressivos, como o Hezbollah e o Hamas em oposição ao Estado de Israel.

O ataque norte-americano por decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a uma base aérea de Bashar al-Assad na Síria em 06/04/2017 ampliou o impasse que já existia entre Estados Unidos e Rússia sobre a guerra civil, com ambos os lados prometendo um recrudescimento no uso da força. O tom adotado pelas duas potências nucleares foi de ameaça, elevando a tensão entre Washington e Moscou num nível semelhante ao vivido na Guerra Fria. O Kremlin chamou a ação norte-americana de “agressão” e “violação da lei internacional” e afirmou que suspenderia o canal de comunicação com forças dos Estados Unidos usado para impedir que os dois países se atacassem na Síria, já que ambos atuam no país. Com indícios de que houve de fato um ataque químico recente contra civis na Síria, Washington e aliados estudam realizar uma ofensiva aérea contra o regime de Assad. “Prepara-se, os mísseis vão chegar”, diz Trump à Rússia. A Rússia, por sua vez, promete abater todos os mísseis contra a Síria. Trata-se de uma situação que coloca em risco a possibilidade de um conflito entre as duas maiores potências do planeta.

Palestina e Israel são focos de uma nova guerra mundial porque estão em conflito desde o final da 1ª Guerra Mundial quando judeus sionistas expressaram o desejo de criar um Estado moderno em sua terra ancestral e começaram a criar assentamentos na região, na época ainda controlada pelo Império Otomano. Tanto israelenses quanto palestinos reivindicam sua parte da terra com base na história, na religião e na cultura. As grandes potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial decidiram o destino da Palestina a favor dos judeus, servindo-se para isso da Liga das Nações, configurando, desta forma, a prepotência que sempre caracterizaram as relações internacionais ao longo da história. Os palestinos viram no patrocínio que deram primeiro a Grã-Bretanha e depois a Liga das Nações ao projeto sionista de criação do lar nacional judaico na Palestina a negação do seu direito à independência.

Desde então, houve muita violência e controvérsia em torno da questão, assim como vários processos de negociações de paz durante o século XX. O Estado de Israel foi fundado em 1948, após o Plano de Partilha elaborado pela ONU, que dividiu a região, então sob o domínio britânico, em Estados árabes e judeus. Após a Segunda Guerra Mundial, houve vários conflitos entre palestinos e nações árabes vizinhas que não concordam com a divisão territorial das antigas terras palestinas. Desde a criação do Estado de Israel, o conflito que o opõe aos palestinos tem sido o epicentro de um conflito entre Israel e o conjunto dos países árabes, com fortes repercussões mundiais. Houve guerras com o Egito, a Jordânia, a Síria e o Líbano, mas sem que a tensão na região diminuísse. Durante este período, Israel ocupou a península do Sinai, a Cisjordânia, a faixa de Gaza, as Colinas de Golã e o sul do Líbano. O Estado de Israel tem soberania sobre grande parte do território que foi conquistado após a derrota dos árabes em duas guerras – o conflito árabe-israelense de 1948 e a Guerra dos Seis Dias, de 1967.

Em 1993, foi assinado o Acordo de Oslo, que deu início ao processo de paz com os palestinos. Pelo acordo, a faixa de Gaza e a Cisjordânia passariam a ser território administrado pela ANP (Autoridade Nacional Palestina). Em 2005, Israel retirou suas tropas e colonos judeus – sob os protestos destes – da faixa de Gaza. Apesar da devolução da faixa de Gaza e de partes da Cisjordânia para o controle palestino, um acordo final ainda precisava ser estabelecido. Para isso, seria preciso resolver os principais pontos de discórdia, que são o status de Jerusalém, o destino de refugiados palestinos e os assentamentos judeus. É pouco provável que o conflito entre palestinos e judeus seja solucionado na atualidade porque as instituições internacionais existentes não são capazes de construir uma saída negociada para o conflito entre estes dois povos e entre Israel e os países árabes.

O Irã é, também, foco de eclosão de uma nova guerra mundial quando decidiu há alguns anos possuir armas nucleares e se tornar uma potência regional – enraizada tanto no nacionalismo persa como no islã xiita – para acabar com seu temor de ser vítima de uma agressão bélica americana e/ou israelense. O governo iraniano se convenceu de que só a verdadeira posse de armas de destruição em massa pode livrá-lo de um ataque externo. Há 40 anos, foram impostas restrições pelas grandes potências que desenvolveram armas nucleares aos demais países não nucleares, entre eles o Irã, limitando o uso da energia nuclear aos fins pacíficos, evitando que fosse usada para fins militares. Isso foi feito por meio do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), firmado em 1968, que legitimou a posse de armas nucleares pelos Estados Unidos, pela União Soviética, pela Inglaterra, pela França e pela China e tentou evitar que outras nações as desenvolvessem, restringindo seu acesso à tecnologia. Acordo nuclear com o Irã foi celebrado em julho de 2015, após quase 20 meses de negociações, entre o governo da República Islâmica e um grupo de potências internacionais, liderado pelos Estados Unidos. Os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha aceitaram encerrar as sanções ligadas ao programa nuclear iraniano, em troca de seu desmantelamento. O pacto entrou em vigor em outubro de 2015 e passou a ser aplicado de fato em janeiro de 2016, após a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) ter verificado que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. O governo de Donald Trump trabalha, entretanto, para inviabilizar o acordo com o Irã realimentando um conflito que parecia ter sido sanado.

A Coreia do Norte pode se constituir em foco de uma nova guerra mundial porque a tensão entre Estados Unidos e Coreia do Norte existe há muitos anos, mas que se intensificou desde que Donald Trump assumiu a Casa Branca. Donald Trump ameaça atacar o país asiático caso o regime de Pyongyang continue com seus testes militares. Cabe observar que, entre 1950 e 1953 ocorreu a Guerra da Coreia que se inseriu na disputa geopolítica entre Estados Unidos e União Soviética. Foi o primeiro conflito armado da Guerra Fria, causando apreensão no mundo todo, pois houve um risco iminente de uma guerra nuclear em função do envolvimento direto entre as duas superpotências militares da época. É oportuno observar que após o fim da Segunda Guerra Mundial com a rendição e retirada das tropas japonesas, o norte passou a ser aliado dos soviéticos e chineses, enquanto o sul ficou sob a influência norte-americana.

Os Estados Unidos entraram na guerra ao lado da Coreia do Sul, enquanto a China (aliada da União Soviética) enviou tropas para a zona de conflito para apoiar a Coreia do Norte. Em 1953, a Coreia do Sul, apoiada pelos Estados Unidos e outros países capitalistas, obteve várias vitórias militares. Em 1953, o governo norte-americano ameaçou usar armas nucleares contra a Coreia do Norte e a China caso a guerra não fosse finalizada com a rendição norte-coreana. Em 28 de março de 1953, Coreia do Norte e China aceitaram a proposta de paz das Nações Unidas. Com o fim da guerra, as duas Coreias permaneceram divididas e os conflitos geopolíticos continuaram, embora não fossem mais para a área militar. Atualmente a Coreia do Norte permanece com o regime comunista, enquanto a Coreia do Sul segue no sistema capitalista. No momento atual, Estados Unidos e Coreia do Norte estão a um passo da guerra cujo conflito pode começar a qualquer momento.

Na atualidade, além dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, são detentores de armas nucleares a India, Coréia do Norte, Paquistão e Israel. Israel não confirma ou desmente os relatórios de especialistas que o acusam de possuir amplo arsenal nuclear estimado em mais de 100 ogivas, sendo assim o único país com tal armamento no Oriente Médio. Por sua vez, Irã e Síria são acusados de terem programas secretos de armas nucleares. Até o presente momento, 187 países ratificaram o TNP e nenhum deles se retirou do pacto, exceto a Coreia do Norte que assim o fez em 2003. Vários países têm criticado o monopólio nuclear perpétuo que o tratado impõe pelo fato de legitimar as armas existentes e não admite que outros países as possuam. O Irã é signatário do TNP que impede o país de desenvolver armas nucleares, mas concede o direito de uso e desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins pacíficos. Os Estados Unidos com Donald Trump consideram que o programa de energia nuclear do Irã tem como objetivo a produção de armas nucleares e não visa fins pacíficos como alega o governo iraniano.

Na era contemporânea, o xadrez geopolítico internacional aponta a existência de 3 grandes protagonistas: Estados Unidos, China e Rússia. Do confronto que se estabeleça no futuro entre essas 3 grandes potências militares poderão resultar cenários alternativos ao atual que se caracteriza no momento pelo declínio da hegemonia dos Estados Unidos na cena mundial. Tomando por base os 3 grandes protagonistas do xadrez geopolítico internacional contemporâneo, pode-se afirmar que os Estados Unidos têm por objetivo recuperar sua hegemonia mundial nos planos econômico e militar. Para alcançar este objetivo, as estratégias do governo norte-americano consistem, fundamentalmente, no seguinte: 1) barrar a ascensão da China como futura potência hegemônica do planeta; e, 2) impedir a Rússia de alçar à condição de grande potência mundial. Na prática, o governo dos Estados Unidos quer evitar o enfrentamento no futuro de dois gigantes: a China como potência hegemônica e a Rússia revigorada.

Duas grandes potências nucleares, Rússia e Índia, poderão atuar no sentido de reforçar a posição da China e dos Estados Unidos, respectivamente. A estratégia militar da Rússia prevê o rearmamento do Exército e da Marinha com o uso de armas convencionais e nucleares como resposta a um ataque contra o país (QUADROS, Bruno Et ali. A nova doutrina militar da Rússia: mais do mesmo?. Publicado no website <http://www.enciclopedia.com.pt/news.php?readmore=181>). A expansão da OTAN rumo às fronteiras russas é o principal perigo externo ao país. A Rússia tenderia a apoiar a China em um conflito com os Estados Unidos. A Índia investe nas forças armadas para fazer frente a seus poderosos vizinhos, China e Paquistão, e a questões de segurança interna. (Ver o artigo Índia é o maior importador de armas do mundo publicado no site <http://www.forte.jor.br/2011/03/24/india-e-o-maior-importador-de-armas-do-mundo/>). A Índia poderia vir a apoiar a intervenção norte-americana na região no confronto com a China.

Para barrar a ascensão da China como potência hegemônica do planeta, a estratégia militar norte-americana está centrada na região Ásia-Pacífico, sem descurar do Oriente Médio para combater o terrorismo, defender Israel, salvaguardar seus interesses petrolíferos e fazer frente à ameaça do Irã. Como aliado dos Estados Unidos, o Japão colabora com a estratégia norte-americana de “cerco” da China reforçando seu poder militar até 2020 (Ver o artigo Japão reforça estratégia militar para reagir à China publicado no site <http://www.portugues.rfi.fr/geral/20101217-japao-reforca-estrategia-militar-para-reagir-china>).  Outro objetivo da estratégia militar norte-americana é tambem pressionar a aliança da Rússia com a China desenvolvendo as ações da Otan na Europa e com o reforço de suas bases militares no Japão, Coréia do Sul e Diego Garcia e da Frota do Pacífico (FAGET, Ruiz Pereyra. Nueva estrategia militar global de Estados Unidos. Publicado no site <http://port.pravda.ru/mundo/11-01-2012/32735-estrategia_eua-0/>).

Sobre a Rússia, é importante destacar que seus objetivos estratégicos são: 1) defender-se da ameaça a seu território representada pelos Estados Unidos e pelas forças da OTAN;  2) reforçar sua posição como fornecedor de gás natural aos países da União Europeia; e, 3) alcançar a condição de potência mundial perdida com o fim da União Soviética. É importante observar que, após o desmantelamento da União Soviética e do sistema socialista do Leste Europeu, o projeto dos Estados Unidos era a ocupação dos territórios fronteiriços da Rússia, que haviam estado sob influência soviética até 1991 (MAZAT,  Numa e SERRANO, Franklin. A Geopolítica das Relações entre a Federação Russa e os EUA: da “Cooperação” ao Conflito. Publicado no website <http://www.revistaoikos.org/seer/index.php/oikos/article/view/293>).

Diante da impossibilidade de um Estado imperial, potências em equilibrio e uma potência hegemônica assegurarem a paz mundial, é chegada a hora da humanidade se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos necessários à construção da paz mundial e ao controle de seu destino.  Para alcançar estes objetivos, urge a implantação de um governo democrático do mundo que se constitui no único meio de sobrevivência da espécie humana capaz de edificar um mundo no qual cada mulher, cada homem de hoje e de amanhã tenham os mesmos direitos e os mesmos deveres, no qual todas as formas de vida e as gerações futuras sejam enfim levadas em conta, no qual todas as fontes de crescimento sejam utilizadas de maneira ecologicamente e socialmente durável.

É chegada a hora de a humanidade se dotar o mais urgentemente possível de instrumentos necessários à construção de um mundo de paz. A ONU que foi fundada após a 2ª Guerra Mundial tem sido inoperante ao longo de sua história. Ela não tem sido bem sucedida na construção de um mundo de paz. Urge reestruturar a ONU e o sistema internacional a fim de que ela possa exercer uma governança mundial que possibilite mediar os conflitos internacionais e assegurar a paz mundial. A governança mundial a ser exercida pela ONU teria por objetivo a defesa dos interesses gerais do planeta, zelaria no sentido de cada Estado nacional respeitar os direitos de cada cidadão do mundo e buscaria impedir a propagação dos riscos sistêmicos mundiais. Ela evitaria o império de um só e a anarquia de todos. Com uma governança mundial, será possível combater a guerra e acabar com o banho de sangue que tem caracterizado a história da humanidade ao longo da história. Os monumentos de Guerra devem ser substituídos por monumentos de Paz a partir da constituição de um governo mundial. Para ser democrático, o governo mundial deve ser representativo de todos os povos do mundo. A sobrevivência da humanidade dependerá da capacidade de se celebrar um Contrato Social Planetário representativo da vontade da maioria da população do planeta.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

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