COMO TRANSFORMAR SALVADOR EM CIDADE SUSTENTÁVEL

COMO TRANSFORMAR SALVADOR EM CIDADE SUSTENTÁVEL

Fernando Alcoforado*

As cidades são um ecossistema onde tudo está inter-relacionado e tudo é interdependente. Jacqueline Beaujeu-Garnier, geógrafa francesa, afirma que a cidade é um sistema aberto, em que o “input”, ou seja, a entrada desse sistema, conta com a energia, a informação, as matérias-primas, os produtos alimentares e o “output”, a saída, é constituída pela inovação, resíduos, produtos fabricados, etc. Este sistema vive, desenvolve-se, mantendo sua organização estrutural no quadro e à custa do ambiente de que ele próprio é indissociável apresentando características específicas porque integra, simultaneamente, o meio físico e a ação da sociedade (Ver BEAUJEU-GARNIER. J. Geografia Urbana. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1980).

Segundo Josildete Pereira de Oliveira e Lara Oliveira Viana Portela, da UNIVALI – Universidade Vale do Itajaí, Itajaí – SC, “a cidade, assim como qualquer sistema, apresenta uma entrada e uma saída de energia. A cidade necessita de nutrientes (combustíveis fosseis, minerais, etc.) e produz novos resíduos e dejetos, o que faz dessa cidade insustentável, à medida que usamos uma energia e produzimos dejetos”. Portanto, “o sistema deve ser aberto, em que as trocas de energia são necessárias, os agentes externos são fundamentais para o equilíbrio e para a sustentabilidade desse sistema” (Ver A cidade como um sistema: reflexões sobre a teoria geral de sistemas aplicada à análise urbana no website <http://revista.grupointegrado.br/revista/index.php/perspectivascontemporaneas/article/view/376>).

As cidades nasceram para facilitar o intercâmbio de bens materiais, informações, cultura e conhecimento. A cidade tornou-se o principal habitat da humanidade. Pela primeira vez na história da humanidade, mais da metade da população está vivendo em cidades. Esse número, 3,3 bilhões de pessoas, deve ultrapassar a marca dos 5 bilhões em 2030. No começo do século XX a população urbana não ultrapassava 220 milhões de pessoas. O acesso a emprego, serviços, equipamentos públicos e a um maior bem-estar econômico e social é o seu maior atrativo para todos os que para ela se dirigem. Grande parte dos problemas ambientais globais tem origem nas cidades o que faz com que dificilmente se possa atingir a sustentabilidade ao nível global sem torná-las sustentáveis.

É nas cidades que as dimensões social, econômica e ambiental do desenvolvimento sustentável convergem mais intensamente, fazendo com que se torne necessário que sejam pensadas, geridas e planejadas de acordo com o modelo de desenvolvimento sustentável que tem por objetivo atender as necessidades atuais da população da Terra sem comprometer seus recursos naturais, legando-os às gerações futuras. Significa dizer que o modelo de desenvolvimento sustentável nas cidades deve ser implementado objetivando a compatibilização dos fatores econômico e social com o meio ambiente. O que caracteriza uma cidade sustentável? É o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para a atual e futuras gerações.

Cidades sustentáveis são cidades que possuem uma política de desenvolvimento para promover o desenvolvimento econômico e social compatibilizado com o meio ambiente natural e construído. Cidades sustentáveis têm como diretriz o ordenamento e controle do uso do solo, de forma a evitar a degradação dos recursos naturais. Uma cidade sustentável deve ter políticas claras e abrangentes de saneamento, coleta e tratamento de lixo; gestão das águas, com coleta, tratamento, economia e reuso; sistemas de transporte que privilegiem o transporte de massas com qualidade e segurança; ações que preservem e ampliem áreas verdes e uso de energias limpas e renováveis; enfim, administração pública transparente e compartilhada com a sociedade civil organizada.

Na época atual em que os problemas do aquecimento global podem levar à catástrofe planetária, toda cidade tem que ter um plano de adaptação às mudanças climáticas, principalmente aquelas afetas a eventos extremos. Cidades costeiras como Salvador, por exemplo, devem ter planejamento contra a elevação previsível do nível dos oceanos, devem se preocupar com deslizamentos em encostas, enchentes, etc. resultantes da inclemência das chuvas. Enfim, devem ter flexibilidade e adaptabilidade às novas exigências climáticas. É preciso redesenhar o crescimento urbano de Salvador de forma a integrá-lo com o ambiente natural, recuperar suas praias e seus rios hoje bastante comprometidos com o lançamento de esgotos, para que a cidade não receba uma resposta hostil do ambiente natural.

Os planos diretores de desenvolvimento urbano de Salvador devem revitalizar o centro antigo da cidade com a recuperação dos imóveis em estado de arruinamento e de seus logradouros para que se tornem espaços de convivência pacífica e confortável para seus habitantes, dotar todos os locais de boa infraestrutura urbana compatível com as necessidades de sua população e promover a formação e manutenção de bairros autossuficientes para evitar a expansão urbana desordenada de seu território. Devem dar prioridade ao adensamento e desenvolvimento urbano no interior dos espaços construídos e à recuperação dos ambientes degradados. As áreas de risco indevidamente ocupadas pelas populações de baixa renda devem ser reurbanizadas ou, quando não for possível, promover a relocação de seus habitantes com a construção de novas unidades habitacionais. São todos grandes projetos que exigem vultosos recursos que criam atividades geradoras de emprego, renda e bem-estar para a população.

O planejamento do desenvolvimento de Salvador, da distribuição espacial de sua população e das atividades econômicas do Município e do território sob sua influência deve evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente. Salvador está a exigir um planejamento estratégico de longo prazo com base no desenvolvimento sustentável que, lamentavelmente, não é prioridade para os políticos em Salvador, na Bahia e no Brasil. O grande desafio é pensar em todas as partes relacionadas ao desenvolvimento de Salvador de forma sistêmica, englobando aspectos econômicos, sociais, ambientais e, também, de desenvolvimento regional ao contemplar também sua relação com a Região Metropolitana de Salvador. Outro grande desafio é ofertar unidades habitacionais, equipamentos urbanos e comunitários, meios de transporte e serviços públicos adequados às necessidades da população e fazer com que ela faça um uso eficiente e sem desperdícios de água e energia, além de efetuar o tratamento de resíduos, reaproveitamento das águas, materiais reciclados e recicláveis, etc.

Quanto à integração de Salvador com a RMS, não se deve criar uma nova estrutura de governo regional, e sim elevar o grau relativo de autonomia na gestão das questões metropolitanas, fortalecendo o papel exercido pelos consórcios e demais estruturas de cooperação entre municípios. A gestão metropolitana só será eficaz se for constituída uma organização em rede da qual participem todos os municípios integrantes da RMS e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade. A cooperação entre os diversos órgãos municipais e os sistemas em rede oferece a possibilidade de dividir custos e riscos, bem como de manter-se em dia com a informação constantemente renovada.

*Fernando Alcoforado, 72, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010) e Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) , entre outros.

COMO TORNAR AS CIDADES SUSTENTÁVEIS

COMO TORNAR AS CIDADES SUSTENTÁVEIS

Fernando Alcoforado *

A cidade tornou-se o principal habitat da humanidade. Pela primeira vez na história humana, mais da metade da população vive nas cidades. Este número, 3,3 bilhões de pessoas, deverá ultrapassar a marca de 5 bilhões até 2030. No início do século XX, a população urbana não excedeu 220 milhões de pessoas. O acesso a empregos, serviços, instalações públicas e maior bem-estar econômico e social é o seu maior atrativo para todos os que para ela se dirigem. Grande parte dos problemas ambientais globais tem origem nas cidades o que faz com que dificilmente se possa atingir a sustentabilidade ao nível global sem torná-las sustentáveis ​​(BEAUJEU-GARNIER, J. Geografia Urbana. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1980).

O processo de urbanização ocorreu de forma significativa primeiramente nos países do continente europeu, com o surgimento e desenvolvimento das indústrias durante o século XVIII. A partir de 1950, esse processo tomou grandes proporções em escala global. O processo de industrialização se expandiu por vários países, atraindo cada vez mais pessoas para as cidades. Porém, a urbanização sem um devido planejamento tem como consequência vários problemas de ordem ambiental e social. O inchaço das cidades, provocado pelo acúmulo de pessoas, e a falta de uma infraestrutura adequada gera transtornos para a população urbana. A maioria das cidades ao redor do mundo cresce de forma desordenada e caótica.

O crescimento descontrolado das cidades ao redor do mundo muitas vezes ressalta a falta de planejamento urbano, gerando impactos irreversíveis nesses territórios, refletidos em sua qualidade ambiental. Impactos significativos no meio ambiente ocorrem devido aos modos de produção e consumo nos espaços urbanizados. Poluições, engarrafamentos, violência, desemprego, etc., são comuns nas cidades. A poluição da água é causada principalmente pela liberação de efluentes industriais e domésticos não tratados. A poluição do ar é um grande problema detectado nas cidades que resulta da liberação de gases tóxicos para a atmosfera. O fluxo intenso de carros e indústrias é o principal responsável por esse tipo de poluição.

Outros problemas ambientais resultantes da urbanização são: impermeabilização do solo, poluição visual, poluição sonora, mudança climática, chuva ácida, ausência de saneamento ambiental, falta de adequada destinação e tratamento de resíduos sólidos, efeito estufa, entre outros. A falta de planejamento urbano eficaz compromete a qualidade de vida da população urbana. O crescimento desordenado das cidades gera a ocupação de lugares impróprios para habitação de populações de baixa renda, como de elevada declividade, fundos do vale, entre outras.

A acelerada urbanização e crescimento das cidades, especialmente a partir de meados do século XX, promoveu mudanças fisionômicas no planeta, mais do que qualquer outra atividade humana. A população do Brasil, por exemplo, apresenta a mesma tendência global da ocupação ambiental, ou seja, opta pelo ecossistema urbano como lar. A transformação do Brasil de rural para urbano ocorreu na década de 1960, seguindo um processo predatório em essência, com marcada exclusão social de classes menos privilegiadas que, por não terem condições de adquirir terrenos em áreas urbanas estruturadas, ocupam principalmente terrenos que deveriam ser protegidos para a preservação das águas, encostas, fundos de vale, entre outros.

No Brasil, os dados apresentados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2004) indicam que mais de 80% das pessoas são moradores urbanos e devem atingir 85% nos próximos vinte anos. Este crescimento dos centros urbanos levou a uma queda acentuada na qualidade de vida e ao crescimento de problemas sociais e desequilíbrios ambientais, agravados pelas recentes mudanças estruturais na dinâmica capitalista. Este fato torna obrigatório trabalhar com os princípios da sustentabilidade incorporados à gestão urbana, com foco em questões como a redução dos níveis de pobreza; criação de empregos; implementação de sistemas de saneamento, educação e saúde; adequação do uso do solo urbano; controle de poluição; recuperação ambiental; uso de fontes de energia limpa; combate à violência urbana; proteção do patrimônio histórico e ambiental, entre outros.

É nas cidades que as dimensões sociais, econômicas e ambientais do desenvolvimento sustentável convergem mais intensamente, fazendo com que se torne necessário que sejam pensadas, gerenciadas e planejadas de acordo com o modelo de desenvolvimento sustentável que tem por objetivo atender as necessidades atuais da população da Terra sem comprometer seus recursos naturais, legando-os às gerações futuras. Significa dizer que o modelo de desenvolvimento sustentável nas cidades deve ser adotado objetivando a compatibilização dos fatores econômico e social com o meio ambiente. O que caracteriza uma cidade sustentável? É o direito da população à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para a atual e futuras gerações.

As cidades sustentáveis ​​são cidades que têm uma política de desenvolvimento econômico e social compatível com o ambiente natural e construído. As cidades sustentáveis ​​têm como orientação o planejamento e o controle do uso da terra, a fim de evitar a degradação dos recursos naturais. Uma cidade sustentável deve ter políticas claras e abrangentes para saneamento, coleta e tratamento de lixo; gestão da água, com coleta, tratamento, economia e reuso; sistemas de transporte que privilegiem o transporte de massas com qualidade e segurança; ações que preservem e ampliem áreas verdes e uso de energias limpas e renováveis; e, sobretudo, administração pública transparente e compartilhada com a sociedade civil organizada.

Na era contemporânea, quando os problemas do aquecimento global podem levar à mudança climática catastrófica em escala planetária, cada cidade precisa ter um plano de adaptação às mudanças climáticas, especialmente aquelas sujeitas a eventos extremos. As cidades costeiras, por exemplo, devem ter planejamento contra o aumento previsível do nível dos oceanos e se preocupar com deslizamentos de terra nas encostas, inundações, etc., resultantes de chuvas inclementes. Em suma, elas devem ter flexibilidade e adaptabilidade aos novos requisitos climáticos. É necessário redesenhar o crescimento urbano das cidades para integrá-lo ao ambiente natural, para recuperar suas praias e seus rios agora comprometidos com o lançamento de esgotos, para que as cidades não recebam uma resposta hostil do meio ambiente natural.

A Arcadis, empresa holandesa de consultoria, engenharia e gerenciamento que surgiu em Amsterdã em 1868, lançou o Índice de Cidades Sustentáveis ​​2015, que classifica as 50 cidades mais sustentáveis ​​do mundo. O índice foi calculado pelo Centro de Economia e Pesquisa Empresarial considerando os fatores sociais (people), ambientais (planet) e econômicos (profit) que fazem uma cidade sustentável. Nas principais posições do ranking estão as cidades européias bem desenvolvidas, como Frankfurt, seguido por Londres, Copenhague, Amsterdã e Roterdã. As cidades de Seul, Hong Kong e Cingapura também aparecem de forma proeminente, fechando o Top 10 com Berlim e Madrid (ARCADIS, As cidades mais sustentáveis ​​do mundo. Disponível no website <http://www.cidadessustentaveis.org.br/noticias/cidades-mais-sustentaveis-do-mundo>).

Quanto aos fatores sociais (people), foi realizada uma análise profunda sobre a qualidade de vida dos cidadãos, cujos indicadores alternam entre a saúde e a expectativa de vida da população da cidade, bem como o nível de alfabetização das pessoas, o custo de vida local, a renda média e as taxas de criminalidade e de desigualdade social. Quanto aos fatores ambientais (planet), foi feita uma análise dos fatores verdes (consumo de energia elétrica, quantidade e qualidade dos parques públicos, quantidade de emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, produção de energia a partir de fontes renováveis, como a energia solar, a exposição às catástrofes naturais e qualidade da água e do ar). Quanto aos fatores econômicos (profit), a análise da saúde econômica de cada cidade foi realizada, avaliando o PIB de cada uma das cidades, sua taxa de empregabilidade, infraestrutura geral e cuidados com transporte, turismo e negócios. Estes são os indicadores com base nos quais se pode avaliar a sustentabilidade social, ambiental e econômica das cidades.

*Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

COMO INVENTAR UM NOVO BRASIL

COMO INVENTAR UM NOVO BRASIL

Fernando Alcoforado*

A prática vem demonstrando a inviabilidade do modelo econômico neoliberal em todo o mundo, inclusive no Brasil. A manutenção do modelo neoliberal se traduzirá no aprofundamento da recessão econômica e da desnacionalização do que ainda resta do patrimônio público no Brasil e, consequentemente, em maior subordinação do País em relação ao exterior. Um governo seriamente comprometido com a defesa da soberania nacional, o progresso do Brasil, o bem-estar-social de sua população e o desenvolvimento sustentável tem que, necessariamente, repelir este cenário substituindo o modelo econômico neoliberal por outro que corresponda aos interesses da população brasileira com o governo exercendo um efetivo controle da economia, além de propiciar a retomada do desenvolvimento nacional.

É oportuno observar que, diante do risco de ter que se submeterem à ditadura do capital financeiro com a introdução do modelo neoliberal, várias nações passaram a adotar caminhos alternativos. Os chamados “países em desenvolvimento” da Ásia adotaram diversos mecanismos para disciplinar a entrada e a saída de capitais. No geral, eles hoje obtêm maior sucesso econômico e maior estabilidade do que os que aplicam o modelo neoliberal como o Brasil. Este é o caso da China, onde as transações de capitais dependem de autorização do Estado, as operações financeiras com o exterior, de entrada ou de saída, são autorizadas pelo governo. Outro exemplo é o da Índia, onde predomina o uso de restrições de natureza quantitativa e administrativa às transações de capitais. China e Índia, que nunca abandonaram o controle sobre os capitais, são hoje sinônimos de crescimento econômico continuado. Diferentemente da China e da Índia, o Brasil é um país altamente vulnerável. Para manter o frágil funcionamento da economia, o governo brasileiro depende do ingresso de capitais do mercado externo ampliando sua dependência.

Para inventar um novo Brasil, é preciso cumprir 3 etapas: 1) Recuperação da economia brasileira devastada de 1990 até o presente momento pelos governos neoliberais; 2) Adoção do modelo nacional desenvolvimentista de abertura seletiva e controlada da economia nacional nos moldes dos adotados pelo Japão, Coreia do Sul e China nas décadas de 1970, 1980 e 1990, respectivamente, que apresentaram as maiores taxas de crescimento econômico após a 2ª Guerra Mundial; e, 3) Adoção da social democracia nos moldes dos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia) que apresentam os maiores índices de progresso econômico e social simultâneos e política de desenvolvimento sustentável.

Na etapa de recuperação da economia brasileira, deveria haver a realização imediata de auditoria das dívidas externa e interna e a renegociação do pagamento da dívida externa e da dívida interna pública do País visando seu alongamento no tempo para a redução dos encargos e a elevação da disponibilidade de recursos públicos para investimento. Deveria ser adotada também uma política econômica que priorize: 1) a redução drástica do gasto público de custeio com a diminuição do número de ministérios e a eliminação de mordomias; 2) o controle do fluxo de entrada e saída de capitais para evitar a evasão de divisas e restringir o acesso de capitais especulativos no país; 3) a redução acentuada das taxas de juros do sistema bancário para incentivar os investimentos nas atividades produtivas; 4) a importação seletiva de matérias-primas e produtos essenciais do exterior para reduzir os dispêndios em divisas do país; 5) a adoção da política de câmbio fixo em substituição à de câmbio flutuante em vigor para proteger a indústria nacional e controlar a inflação; 6) a reintrodução da reserva de mercado em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional; 7) a reestatização de empresas estatais privatizadas consideradas fundamentais para o desenvolvimento nacional; e, 8) a adoção de uma política tributária como a taxação das grandes fortunas e maior taxação do sistema financeiro que seja capaz de assegurar os recursos de que o Estado necessitaria para investir em educação, saúde, previdência social e nos setores de infraestrutura, entre outros e onerar o mínimo possível a população e os setores produtivos.

Após a etapa de recuperação ou saneamento da economia brasileira, deveria ser adotado o modelo econômico nacional desenvolvimentista de abertura seletiva e controlada da economia a ser implantado durante 10 anos considerando a adoção de estratégias que contribuam para: 1) o aumento da poupança pública e privada visando elevar as taxas de investimento da economia brasileira; 2) a realização de investimentos estrangeiros preferencialmente nas áreas voltadas para as exportações e naquelas em que as empresas nacionais não tiverem condições de suprir o mercado interno; 3) a maximização das exportações brasileiras para expandir as receitas de divisas do país e alavancar o crescimento da economia nacional; 4) a concessão de incentivos fiscais para a atração de investimentos privados em regiões menos desenvolvidas do Brasil; 5) o incentivo e reforço das atividades de pesquisa e desenvolvimento e do sistema educacional do País; e, 6) a redução das desigualdades sociais contemplando a adoção de medidas que contribuam para o atendimento das necessidades básicas da população em termos de alimentos, vestuário, habitação, serviços de saúde e emprego, e uma melhor qualidade de vida. Todo este conjunto de medidas deveria ser posto em prática com base na planificação da atividade econômica nacional que assegure o crescimento econômico e o desenvolvimento do país em bases sustentáveis.

Após 10 anos de adoção do modelo nacional desenvolvimentista de abertura seletiva e controlada da economia, deve-se implantar, em seguida, um novo modelo de sociedade que possibilite uma convivência civilizada entre todos os seres humanos no Brasil. Este novo modelo deveria ser inspirado na social democracia existente nos países da Escandinávia (Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia) onde foi implantado o mais bem sucedido sistema político, econômico e social, com os necessários aperfeiçoamentos e adaptações no Brasil. Foi a social democracia construída até hoje nos países escandinavos o único modelo de sociedade que permitiu a realização de progresso econômico, social e político sem similar na história da humanidade, com o Estado atuando como mediador dos conflitos entre os interesses do capital e da Sociedade Civil. Não é por acaso que os países escandinavos são líderes mundiais no Índice de Progresso Social da ONU e em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) no mundo pelo fato de apresentarem grandes êxitos políticos, econômicos e sociais.

A social democracia a ser implantada no Brasil deveria resultar, portanto, do aperfeiçoamento do modelo escandinavo que operaria com um tripé estruturado com base em um Estado neutro, Sociedade Civil Organizada ativa e Setor Produtivo (estatal e privado) eficiente e eficaz. O Estado neutro buscaria compatibilizar os interesses do Setor Produtivo (estatal e privado) com os da Sociedade Civil mediando seus conflitos em várias instâncias dos poderes executivo e legislativo que, quando não se obtém o consenso, a decisão final ficaria a cargo da população que decidiria democraticamente através de plebiscito e/ou referendo. Na nova social democracia, não deveria ser permitida a ação de grupos monopolistas e cartéis privados na economia. Empresas privadas só atuariam em setores econômicos onde houvesse competição. Empresas estatais ou de economia mista ocupariam os setores econômicos onde não fosse possível haver competição.   Este é o novo Brasil que precisaria ser inventado.

Cabe observar que esta proposta de invenção de um novo Brasil está detalhada no livro de nossa autoria A invenção de um novo Brasil publicada pela Editora CRV de Curitiba. Para viabilizar esta solução para o Brasil, é preciso que, antes de tudo, haja um governo de salvação nacional constituído por personalidades de competência comprovada e de moral ilibada para convocar uma nova Assembleia Constituinte para corrigir as distorções da Constituição de 1988 e possibilitar estabelecer novos rumos para o Brasil, não apenas nos planos econômico, político e social, mas também nos planos ético e moral. Após a Constituinte, com o saneamento político do Brasil, seriam convocadas eleições gerais.

As reformas política, econômica, do Estado e da Administração Pública são a condição sine-qua-non para fortalecer o Estado brasileiro e capacitá-lo a enfrentar a maior crise econômica da história do Brasil. Com o Estado brasileiro debilitado como está com as instituições políticas desmoralizadas não conseguirá superar a gigantesca crise econômica que devasta a economia brasileira.  O crescimento do número de desempregados e das falências de empresas nos últimos 2 anos  demonstram a necessidade de que seja constituído um governo de salvação nacional. A invenção de um novo Brasil só acontecerá quando à frente da nação brasileira estiverem personalidades comprometidas com a construção de uma nova ordem política, econômica e social no Brasil que corresponda aos interesses da grande maioria do povo brasileiro.

*Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).  Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

A ENGENHARIA E A CONSTRUÇÃO DO BRASIL

A ENGENHARIA E A CONSTRUÇÃO DO BRASIL

Fernando Alcoforado*

A história da arquitetura e da engenharia no Brasil começa em 1549, com a fundação do Governo Geral e da Cidade do Salvador por Thomé de Souza. O primeiro Governador Geral trouxe consigo um grupo de profissionais construtores com a ordem do Rei D. João III para que fizessem “uma fortaleza de pedra e cal e uma cidade grande e forte… como melhor poder ser”. A engenharia entrou no Brasil através das atividades de duas categorias de profissionais: os oficiais-engenheiros e os então chamados mestres de risco construtores de edificações civil e religiosa graças a cuja atividade os brasileiros de então tiveram teto, repartições e templos.

O marco fundamental para o ensino superior no Brasil foi a vinda da família real portuguesa para o País, em 1808, fato este que permitiu a criação de diversas instituições. Em 1810 foi criada a Academia Real Militar, a partir das instalações da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, cujo objetivo era formar oficiais de infantaria, de artilharia, de engenharia e oficiais de classe de engenheiros geógrafos e topógrafos, com a incumbência de dirigir sistemas administrativos, de minas, de caminhos, portos, canais, pontes, fontes e calçadas.

Ao longo da história da Engenharia brasileira tem sido grande o número de engenheiros e empresas, das mais diversas áreas de atividades, que se têm se destacado pela criatividade e pioneirismo das soluções adotadas nos projetos e nas obras que executaram. Da época da instalação das grandes siderúrgicas a partir da industrialização na década de 1930 durante o governo Getúlio Vargas, que alteraram o modelo e as possibilidades de crescimento do País, da fase da abertura dos eixos rodoviários de penetração, da construção de Brasília, na ação desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e da construção das grandes hidrelétricas a partir da década de 1950, até o completo domínio da tecnologia de exploração de petróleo “off shore” na década de 1990, muitas empresas nacionais e muitos engenheiros ajudaram a modernizar e a desenvolver o Brasil.

O Brasil é plenamente desenvolvido em diferentes setores de Engenharia. Da construção de estradas ao setor energético tudo é possível de ser projetado e construído no Brasil. Em alguns setores, inclusive, o Brasil é referência mundial, como é o caso dos programas ligados ao Proálcool e biodiesel, à exploração de petróleo em águas profundas, construções de grandes hidroelétricas, como Itaipu, a maior em operação até bem pouco tempo, projetada, construída e montada por empresas brasileiras. Os engenheiros e empresas de engenharia colaboraram decisivamente para desencadear o processo de modernização do País. É importante destacar também os administradores públicos engenheiros que tiveram larga visão e contribuíram para materializar ousados projetos de infraestrutura de energia, transportes e comunicações implantados no Brasil nos últimos 60 anos. Cabe lugar de relevo, também, os pioneiros na fabricação de máquinas e equipamentos, além de bens de capital e fornecedores de insumos que ajudaram a proporcionar extraordinário impulso à Engenharia e à Construção brasileiras. A Engenharia foi, portanto, responsável pela construção do Brasil moderno.

Apesar da enorme contribuição da engenharia brasileira à modernização do Brasil, ela precisa se fortalecer ainda mais para contribuir para o progresso do País. Um dos grandes desafios para a engenharia brasileira diz respeito à sua contribuição à participação do Brasil na corrida à inovação ao nível global. A situação brasileira é desvantajosa porque, enquanto os Estados Unidos, por exemplo, têm 800 mil cientistas trabalhando em pesquisa e desenvolvimento dos quais 81% estão nas empresas, 4% no governo e 15% em instituições de ensino superior, o Brasil possui apenas 137 mil cientistas dos quais 65% dos pesquisadores estão nas universidades, 27% nas empresas e 8% no governo. Estes números mostram que, ao contrário dos Estados Unidos, a contribuição das empresas em P&D no Brasil é muito pequena.

Outro aspecto a considerar é a de que é ridículo falar em inovação tecnológica no Brasil com a indústria desnacionalizada e com os seus centros das decisões sobre produção e mercados, situados no exterior, como é o caso da indústria brasileira. Tudo isto explica porque o Brasil continua sendo um dos países menos inovadores do mundo. A indústria desnacionalizada é fator determinante para o Brasil ser um país que investe pouco em pesquisa, menos de 1 % do seu PIB, enquanto a maioria dos países industrializados está no patamar médio de 3%. O Brasil investe pouco em educação, algo como 4,5% do PIB, enquanto nos países desenvolvidos esse índice chega a 7% ou mais.

Para a Engenharia brasileira elevar seu nível de contribuição ao progresso do Brasil, é preciso melhorar a qualidade da educação no País que é muito baixa. Segundo avaliação da OCDE de 2010 – Programa Internacional de Avaliação de Alunos, PISA – o Brasil está em 55º lugar, entre 65 países analisados. Abaixo do Chile, Uruguai, México e Trinidad e Tobago. Os dois melhores lugares estão ocupados pela China e pela Coréia do Sul. Os alunos brasileiros do nível médio brasileiro ficaram abaixo da média em leitura, matemática e ciência. Ora, são justamente essas disciplinas que representam os fundamentos para a formação do engenheiro. A absorção de conhecimentos nos atuais cursos de engenharia no Brasil não é eficiente porque as escolas de engenharia absorvem boa parte dos alunos de nível médio com insuficiência em português, matemática e ciência.

Os atuais cursos de engenharia no Brasil têm um número excessivo de especializações na graduação, No Brasil, os cursos de engenharia deveriam ser reestruturados visando formar o engenheiro básico cujas atribuições seriam redefinidas pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA) e pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CREA), bem como as atribuições dos mestres e doutores de acordo com sua especialização. Deve-se também incluir a experiência adquirida na educação continuada. O Brasil precisa equacionar definitivamente a questão da educação em todos os níveis de ensino, fundamento de todas as políticas públicas, a principal delas, a única que pode produzir cidadãos habilitados a participarem como protagonistas do processo de desenvolvimento do Brasil. Daí a importância dos engenheiros, pois eles resumem na sua formação os saberes do que fazer e como fazer, indispensáveis ao processo de desenvolvimento de uma sociedade industrial moderna.

Outro grande desafio da engenharia brasileira reside no fato de haver insuficiência de engenheiros no Brasil. Segundo dados do CONFEA, existem no Brasil 712,4 mil engenheiros.  De acordo com estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), para dar conta da demanda por engenheiros, seria necessário formar 60 mil engenheiros por ano no Brasil. Mas o que acontece no Brasil é que apenas 48 mil obtêm este diploma a cada ano. Uma das causas da insuficiência de engenheiros no Brasil resulta, entre outros fatores, da desistência ou evasão dos alunos durante o curso que é muito grande chegando a 60%. A evasão acontece no primeiro e no segundo ano principalmente pela formação deficiente em matemática e física do estudante no ensino médio que, em muitos casos, tem dificuldade para acompanhar o curso.

Outra causa da insuficiência de engenheiros no Brasil reside no fato de muitos deles não trabalharem na profissão. Segundo o IPEA, em 2008, o número de graduados em Engenharia era de aproximadamente 750 mil profissionais, enquanto que o estoque de empregos formais nas ocupações típicas destes trabalhadores era de 211,7 mil. Em outras palavras, para cada dois graduados em engenharia trabalhando com carteira assinada em ocupações típicas de sua formação, há outros cinco em uma das seguintes situações: exercendo outras ocupações, desempregados, exercendo atividades como profissionais não assalariados, trabalhando em outros países ou simplesmente fora do mercado de trabalho.

Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil precisaria de mais 150 mil engenheiros até o final de 2012, por causa de investimentos no setor de energia, infraestrutura e a descoberta do pré-sal. Uma das áreas com maior necessidade de profissionais é a de petróleo e gás. O IPEA estima que em 2015, caso o crescimento do PIB fique em 5% ao ano, serão necessários 1,155 milhões de engenheiros. E, com crescimento de 7% ao ano, serão necessários 1,462 milhão de engenheiros. A projeção para 2022 aponta a necessidade de 1,565 milhões de engenheiros em ocupações típicas.

Além da carência de engenheiros, o Brasil forma mais de 77% de engenheiros em apenas quatro especialidades: técnico industrial (339.822, ou 33,87% do total), engenheiro civil (201.290, 20,06%), engenheiro eletricista (122.066, 12,16%) e engenheiro mecânico e metalurgia (109.788, 10,94%). Com a concentração em poucas especialidades, o mercado fica ainda mais carente em outros nichos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) diagnosticou que o Brasil precisa, especialmente, de engenheiros de minas, de petróleo e gás, navais e de computação.

Lamentavelmente, o Brasil é essencialmente um país de baixo crescimento econômico, de baixa escolaridade da mão de obra (oito anos de estudo em média) e de reduzida escala de produção de inovação frente aos demais países industrializados ou recém-industrializados. Embora o Brasil tenha capacidade de extrair petróleo de águas profundas, produzir navios e aviões, isso ainda é insuficiente para a dimensão das necessidades sociais e econômicas de nossa população. Para se desenvolver, o Brasil não deve abandonar a sua Engenharia e, com o melhor uso desta, alavancar seu progresso econômico e social e evitar a eterna dependência tecnológica em relação ao exterior.

*Fernando Alcoforado, 74, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

A ENGENHARIA BRASILEIRA E SEUS DESAFIOS NA ERA CONTEMPORÂNEA

A ENGENHARIA BRASILEIRA E SEUS DESAFIOS NA ERA CONTEMPORÂNEA

Fernando Alcoforado*

O primeiro grande desafio da Engenharia brasileira consiste em tornar eficientes os cursos de Engenharia. Para tanto, o governo federal deveria melhorar a qualidade da educação em todos os níveis no País que é muito baixa. Segundo avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2010 – Programa Internacional de Avaliação de Alunos, PISA – o Brasil está em 53º lugar, entre 65 países analisados. Abaixo do Chile, Uruguai, México e Trinidad e Tobago (OKADA, Ana. Quase metade dos alunos brasileiros de 15 anos não atinge nível básico de leitura no Pisa, disponível no website <http://educacao.uol.com.br/noticias/2010/12/09/quase-metade-dos-alunos-brasileiros-nao-atinge-nivel-basico-de-leitura-no-pisa.htm>).

O Brasil investe pouco em educação, algo como 5,7% do PIB e gasta muito mal, enquanto nos países desenvolvidos esse índice chega a 7,8% (AZEVEDO, Reinaldo. O Brasil investe em educação um percentual do PIB de Primeiro Mundo e colhe um resultado de Terceiro. É dinheiro que falta? Não! É competência mesmo! Mas não se diga isso na era petista…disponível no website <http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-brasil-investe-em-educacao-um-percentual-do-pib-de-primeiro-mundo-e-colhe-um-resultado-de-terceiro-e-dinheiro-que-falta-nao-e-competencia-mesmo-mas-nao-se-diga-isso-na-era-petista/ >).

Toda esta situação faz com que a aquisição de conhecimentos dos alunos dos níveis fundamental e médio no Brasil seja deficiente em português, matemática, física e química, as quais são disciplinas que representam os fundamentos para a formação do engenheiro. Além disso, o Brasil ainda tem cerca de 10% de sua população analfabeta, sendo que, dos que leem mais de 30% não sabe interpretar o que leram em uma simples matéria de jornal. São os analfabetos funcionais. Enquanto nos países desenvolvidos esse índice é zero. O Brasil precisa solucionar definitiva e urgentemente a questão da educação em todos os níveis de ensino.

A absorção de conhecimentos nos atuais cursos de engenharia no Brasil não é eficiente porque, além de as escolas de engenharia absorverem boa parte dos alunos de nível médio com insuficiência em português, matemática e ciências, tem um número excessivo de especializações na graduação. A excessiva proliferação de especializações produz engenheiros pouco adaptáveis à era atual, pós-industrial, que podem rapidamente tornarem-se obsoletos. Na era atual é extremamente recomendável formar um engenheiro básico, tal como o médico e o advogado, e especializá-lo, em seguida, de acordo com as necessidades profissionais, além de reciclá-lo continuamente.

O segundo grande desafio da engenharia brasileira reside no fato de haver insuficiência de engenheiros no Brasil. Segundo dados do Conselho Federal de Engenharia Arquitetura e Agronomia (CONFEA), existem 712,4 mil engenheiros no Brasil. De acordo com estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), para dar conta da demanda por engenheiros, seria necessário formar 60 mil engenheiros por ano no Brasil. Mas o que acontece no Brasil é que apenas 48 mil obtêm este diploma a cada ano. Enquanto isto o número de diplomados anualmente na China (400 mil), Índia (250 mil), Rússia (100 mil) e Coréia do Sul (80 mil) supera amplamente o do Brasil (48 mil) (SINDICATO DOS ENGENHEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO. Brasil deveria formar o dobro de engenheiros, disponível no website <http://www.seesp.org.br/site/cotidiano/1213-brasil-deveria-formar-o-dobro-de-engenheiros.html>).

Outra situação lamentável reside no fato de que para cada 150 mil estudantes que ingressam no curso de engenharia em nosso país, apenas 48 mil se formam, ou seja, somente 32%. Esta situação resulta da péssima qualidade do ensino médio, sobretudo em matemática e ciências porquanto os alunos abandonam os cursos porque não têm capacidade de acompanhá-los. A evasão dos alunos durante o curso de engenharia é muito grande chegando a 60% sendo uma das causas da insuficiência de engenheiros no Brasil. A evasão acontece no primeiro e no segundo ano principalmente pela formação deficiente em matemática e ciências do estudante no ensino médio que, em muitos casos, tem dificuldade para acompanhar o curso.

Outra causa da insuficiência de engenheiros no Brasil reside no fato de muitos deles não trabalharem na profissão. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) do governo federal, em 2008, o número de graduados em Engenharia era de aproximadamente 750 mil profissionais, enquanto que o estoque de empregos formais nas ocupações típicas destes trabalhadores era de 211,7 mil. Em outras palavras, para cada dois graduados em engenharia trabalhando com carteira assinada em ocupações típicas de sua formação, há outros cinco em uma das seguintes situações: exercendo outras ocupações, desempregados, exercendo atividades como profissionais não assalariados, trabalhando em outros países ou simplesmente fora do mercado de trabalho (ADMINISTRADORES.COM. Número de engenheiros no Brasil pode ultrapassar um milhão em 2015, disponível no website <http://www.administradores.com.br/informe-se/informativo/numero-de-engenheiros-no-brasil-pode-ultrapassar-um-milhao-em-2015/30519/>).

O IPEA estima que em 2015, caso o crescimento do PIB fique em 5% ao ano, serão necessários 1,155 milhões de engenheiros. E, com crescimento de 7% ao ano, serão necessários 1,462 milhão de engenheiros. A projeção para 2022 aponta a necessidade de 1,565 milhões de engenheiros em ocupações típicas. De acordo com o IPEA, o setor de petróleo e gás (incluindo-se extração e refino) continuará expandindo sua demanda por esses profissionais a taxas entre 13% e 19% ao ano (PEDUZZI, Pedro. Muitos engenheiros nas faculdades, mas poucos trabalham na profissão, disponível no web site <http://educacao.uol.com.br/ultnot/2010/02/24/ult105u9118.jhtm>).

Para superar o problema da insuficiência de engenheiros no Brasil, o governo lançou, em 2011, o Pró-Engenharia. Elaborado por uma comissão de especialistas nomeada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o projeto prevê investimentos de R$ 1,3 bilhões, cujo objetivo é ampliar o número de engenheiros formados no país – a partir de 2016 – e reduzir a taxa de evasão nos cursos de engenharia. Entre 2000 e 2009, o número de formandos de engenharia saltou de 22,8 mil para 48 mil. Apesar do crescimento, a participação de engenheiros no universo de formados nas universidades brasileiras caiu de 7% para menos de 6%. Como forma de comparação, na China, 35% dos formandos nas universidades são engenheiros; e na Coreia do Sul, 25%. Enquanto mais de 80% da alta burocracia chinesa é formada por engenheiros, no Brasil não devem somar nem mesmo 10%, segundo Luiz Carlos Bresser Pereira (BRESSER PEREIRA, Onde estão nossos engenheiros?. Folha de S. Paulo, 27 de agosto de 2012).

Pelo exposto, para superar todos os desafios da engenharia brasileira, é preciso, portanto, que o governo federal promova uma verdadeira revolução no setor educacional em todos os níveis e planeje de forma competente a formação profissional e a reciclagem dos engenheiros do Brasil em termos de qualidade e quantidade para evitar os problemas como os enfrentados na era contemporânea.

*Fernando Alcoforado, 72, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998),  Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

A EDUCAÇÃO VOLTADA PARA O FUTURO

A EDUCAÇÃO VOLTADA PARA O FUTURO

Fernando Alcoforado*

A Sociedade Pós-industrial é o nome proposto para uma economia que passou por uma série de mudanças específicas, após o processo de industrialização. O conceito foi introduzido pelo sociólogo e professor da Universidade de Harvard Daniel Bell em 1962 sendo detalhado na sua obra The Coming of Post Industrial Society: A Venture in Social Forecasting de 1976. A Sociedade Pós-industrial é marcada por um rápido crescimento do setor de serviços, em oposição ao setor industrial, e um rápido aumento da tecnologia da informação tendo o conhecimento e a criatividade como as matérias primas cruciais de tais economias. É por isto que a era Pós-industrial é conhecida também como a era da Informação e do Conhecimento. É importante ressaltar que a informação pode ser encontrada numa variedade de objetos inanimados, desde um livro até um pendrive, enquanto o conhecimento só é encontrado nos seres humanos porque são capazes de aplicar a informação através de seu cérebro ou de suas habilidosas mãos. A informação torna-se inútil sem o conhecimento do ser humano (BELL, Daniel. The Coming of Post Industrial Society: A Venture in Social Forecasting.  Disponível no website <https://www.os3.nl/_media/2011-2012/daniel_bell_-_the_coming_of_post-industrial_society.pdf>, 1976.).

Segundo Daniel Bell (1976), a Sociedade Pós-industrial é formada por três esferas distintas, social, política e cultural, onde o eixo principal é a tecnologia que tem como principal atividade o processamento de informação com base nas telecomunicações e na computação e tem como princípio o valor “conhecimento” em contraponto com o valor “trabalho” da era industrial. A centralidade do conhecimento teórico assim como as inovações tecnológicas e a expansão do setor dos serviços torna o trabalho intelectual mais frequente e importante do que a simples execução de tarefas. Segundo Alvin Tofler, estas mudanças profundas na organização do trabalho originam mudanças estruturais profundas na cultura, na política e na economia de uma sociedade. Ao nível econômico, as sociedades pós-industriais caracterizam-se pelo crescimento do setor dos serviços enquanto principal atividade econômica, que substitui assim em importância a produção de bens. Em termos de estrutura de classes, este tipo de sociedade levaria ao aumento do poder das profissões técnicas e dos setores tecnológicos intelectuais (TOFLER, Alvin. O choque do futuro. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1973).

Uma das principais características da Sociedade Pós-industrial é o uso em larga escala da tecnologia da informação. A revolução informacional ou da tecnologia da informação se alastrou a partir dos anos 1970 e 1980, ganhando intensidade na década de 1990 com a propagação da Internet, ou seja, da comunicação em rede por meio do computador. Por que chamar esse processo de revolução? Porque a informatização penetrou na sociedade tal como a energia elétrica, resultante da Segunda Revolução Industrial, reconfigurou a vida das cidades. O computador, ícone da nova revolução, ligado em rede está alterando a relação das pessoas com o tempo e com o espaço. O computador ressuscitou a escrita após a supremacia das mídias audiovisuais, principalmente após o império da comunicação televisiva. As redes informacionais permitem ampliar a capacidade de pensar de modo inimaginável. A nova revolução tecnológica ampliou a inteligência humana. Estamos falando de uma tecnologia que permite aumentar o armazenamento, o processamento e a análise de informações, realizar bilhões de relações entre milhares de dados por segundo (CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999).

A Sociedade Pós-industrial apresentou em sua evolução duas etapas: 1) Sociedade da Informação que tinha como característica o acesso democratizado, universal, global e total a informação e ao conhecimento, através dos meios de comunicação e equipamentos eletrônicos. A Internet inaugura uma nova sociedade chamada de Sociedade da Informação; e, 2) Sociedade do Conhecimento que se produziu a partir das redes sociais, das interações e colaborações entre os indivíduos membros. São pessoas discutindo questões, refletindo sobre elas, ensinando e aprendendo, umas com as outras, em todas as áreas do conhecimento. O mundo mudou a forma de produção da  informação e construção do conhecimento. Mudaram as velocidades do acesso à Internet que permitiu as trocas ou o intercâmbio. Não existe mais o monopólio da informação e não precisamos mais guardar conteúdos porque eles estão todos armazenados em banco de dados, nas “nuvens”.

A Sociedade Pós-industrial é responsável pelo avanço tecnológico contemporâneo e pelos seus impactos sobre o mundo do trabalho. No livro The Second Machine Age (A segunda era da máquina), seus autores afirmam que a combinação do poder de computação maciço com redes abrangentes, aprendizado de máquinas, mapeamento digital e a “Internet das coisas” estão produzindo uma revolução industrial completa, na mesma escala que as transformações causadas pela energia a vapor e a eletricidade. Mas enquanto essas revoluções mais antigas suplantaram a força física humana (e equina), a nova vai suplantar muito da cognição humana, e o trabalho que exigia empregar pessoas para fazer tarefas de processamento de informação afinal será feito por computadores. A implicação é que até as pessoas em muitas ocupações de colarinho branco poderão se ver desempregadas. A maioria das pessoas não tem ideia das capacidades dessas novas tecnologias. A ameaça aos empregos atuais é bastante evidente. A consultoria Boston Consulting Group prevê que, em 2025, até um quarto dos empregos seja substituído por softwares ou robôs, enquanto que um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, aponta que 35% dos atuais empregos no país correm o risco de serem automatizados nas próximas duas décadas (BRYNJOLFSSON, Erik e McAFEEE, Andrew. The second machine age. New York: Norton paperback, 2016).

Cabe observar que Inteligência Artificial (mencionada pela sigla em inglês AI – artificial intelligence) é a inteligência similar à humana exibida por mecanismos ou software. O principal objetivo dos sistemas de AI é executar funções consideradas inteligentes. Especialistas acreditam que a inteligência das máquinas se equiparará à de humanos até 2050, graças a uma nova era na sua capacidade de aprendizado. Computadores já estão começando a assimilar informações a partir de dados coletados. Isso significa que estamos criando máquinas que podem ensinar a si mesmas a participar de jogos de computador – e ser muito boas neles – e também a se comunicar simulando a fala humana, como acontece com os smartphones e seus sistemas de assistentes virtuais. É importante observar que mesmo que AI não conduza a um cenário de desemprego em massa a curto prazo, poderá levá-lo a médio e longo prazo. Tudo leva a crer que os robôs vão substituir os seres humanos no mercado de trabalho porque temos tecnologias que estão moldando o mundo para o qual rumamos. A ameaça aos empregos atuais é bastante evidente.

Um dos objetivos de um sistema de educação de um país é o de planejar a preparação e a reciclagem das pessoas para o mercado de trabalho. O grande desafio de educação é representado pelas rápidas mudanças que estão ocorrendo no mundo do trabalho graças ao avanço tecnológico, sobretudo ao impacto da inteligência artificial que nasceu da Ciência da Computação e é uma área extremamente multidisciplinar, que envolve Psicologia, Neurociência, Teoria da Decisão e Economia, que pode gerar o fim de algumas profissões e gerar o desemprego em massa de trabalhadores qualificados e não qualificados. Compete aos planejadores dos sistemas de educação identificar o papel dos seres humanos no mundo do trabalho em um futuro com máquinas inteligentes para realizar uma ampla revolução no ensino em todos os níveis contemplando a qualificação dos professores e a estruturação das unidades de ensino para prepararem seus alunos para um mundo do trabalho em que as pessoas terão que lidar com máquinas inteligentes. Os currículos das unidades de ensino em todos os níveis devem ser profundamente reestruturados para atingirem esses objetivos.

Murilo Gun, palestrante graduado na Singularity University e professor de criatividade, elencou quatro habilidades que serão essenciais em um futuro de crescimento exponencial com tecnologias disruptivas, como a Inteligência Artificial: 1) Inteligência interpessoal- a habilidade de se relacionar com outras pessoas, destacando-se a capacidade de criar empatia, que está relacionada com a capacidade de liderança; 2) Inteligência intrapessoal- a capacidade de se relacionar consigo mesmo, destacando-se o autoconhecimento, autocontrole e domínio de emoções; 3) Inteligência Inter artificial- habilidade de compreender o impacto da tecnologia, como a Inteligência Artificial e a robótica, e utilizar esses recursos como ferramentas para ampliar o potencial humano; e, 4) Inteligência criativa– principal diferencial entre a inteligência humana e a artificial, ou seja, desenvolvendo a capacidade de criar algo novo, utilizando as demais inteligências e aplicando-as de forma inovadora (SAP. As habilidades do futuro em um mundo com Inteligência Artificial. Disponível no website <http://news.sap.com/brazil/2017/01/25/as-habilidades-do-futuro-em-um-mundo-com-inteligencia-artificial/>).

Pode-se afirmar que a educação tem por objetivo preparar as pessoas para a vida e para o mercado de trabalho futuro. Considerando que muito em breve o mundo será bastante diferente do que é hoje, é preciso estruturar o sistema de educação para atender as necessidades não apenas do presente, mas, sobretudo do futuro. Artigo publicado no Blog da CONQUER – a nova escola sob o título 6 tendências para o futuro da educação, disponível no website <http://escolaconquer.com.br/6-tendencias-para-o-futuro-da-educacao/>, informa que o sistema de ensino deve acompanhar as mudanças no mundo. As 6 tendências do sistema de educação do futuro são as seguintes:

  1. Salas de aula– Ao invés de serem destinadas à teoria, as salas terão como objetivo a prática. O aluno aprende a teoria em casa e pratica nas salas de aula com auxílio de um professor/mentor.
  2. Aprendizado personalizado– Estudantes irão aprender com ferramentas que se adaptam a suas próprias capacidades, podendo aprender em tempo e locais diferentes. Isso significa que alunos acima da média serão desafiados com exercícios mais difíceis e os com mais dificuldade terão a oportunidade de praticar mais até que atinjam o nível desejado. Esse processo fará com que os professores sejam mais capazes de ver claramente qual tipo de ajuda cada estudante precisa.
  3. Livre escolha– Estudantes terão a liberdade de modificar seu processo de aprendizagem, escolhendo as matérias que desejam aprender com base em suas próprias preferências e poderão utilizar diferentes dispositivos, programas e técnicas que julgarem necessários para o próprio aprendizado.
  4. Aplicabilidade prática– O conhecimento não ficará apenas na teoria, ele será posto em prática através de projetos para que os alunos adquiram o domínio da técnica e também pratiquem organização, trabalho em equipe e liderança.
  5. QE > QI (quociente emocional > quociente de inteligência)– Uma vez que a tecnologia traz mais eficiência e vem cada vez mais substituindo o trabalho humano em diversas áreas, a formação deverá contemplar a presença de habilidades essencialmente humanas e valorizar ainda mais as interações sociais. As escolas deverão prover mais oportunidades para os alunos adquirirem habilidades do mundo real, que farão a diferença em seus trabalhos. Isso significa mais espaço para programas de trabalho, mais projetos colaborativos, mais prática.
  6. O sistema de avaliações irá mudar– Muitos argumentam que a forma como o sistema de perguntas e respostas das provas não é eficaz, pois muitos alunos apenas decoram os conteúdos e os esquecem no dia seguinte após a avaliação. Ainda, esse sistema não avalia adequadamente o que realmente o aluno é capaz de fazer com aquele conteúdo na prática. Por isso, a tendência é que as avaliações passem a ocorrer na realização de projetos reais, com os alunos colocando a mão na massa.

No texto Educação do Futuro, disponível no website <https://www.goconqr.com/pt-BR/examtime/blog/educacao-futuro/>, foi apresentada entrevista de José Moran,
Pesquisador e orientador de Projetos Educacionais Inovadores com metodologias ativas em cursos presenciais e online e autor do livro “A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá ”. Os principais aspectos por ele considerados são os seguintes:

  1. Não deve ser adotado um único modelo, proposta, caminho para a educação. Trabalhar com desafios, com projetos reais, com jogos parece o caminho mais importante hoje, mas pode ser realizado de várias formas e em contextos diferentes. Podemos ensinar por problemas e projetos num modelo disciplinar e em modelos sem disciplinas isoladas; com modelos mais abertos – de construção mais participativa e processual – e com modelos mais roteirizados, preparados anteriormente, planejados nos seus mínimos detalhes.
  2. Alguns componentes são fundamentais para o sucesso da aprendizagem: a criação de desafios, atividades, jogos que realmente trazem as competências necessárias para cada etapa, que solicitam informações pertinentes, que oferecem recompensas estimulantes, que combinam percursos pessoais com participação significativa em grupos, que se inserem em plataformas adaptativas, que reconhecem cada aluno e ao mesmo tempo aprendem com a interação, tudo isso utilizando as tecnologias adequadas.  O articulador das etapas individuais e grupais é o docente, com sua capacidade de acompanhar, mediar, de analisar os processos, resultados, lacunas e necessidades, a partir dos percursos realizados pelos alunos individual e grupalmente. Esse novo papel do professor é mais complexo do que o anterior de transmitir informações.Precisa de uma preparação em competências mais amplas, além do conhecimento do conteúdo,  como saber adaptar-se ao grupo e a cada aluno; planejar, acompanhar e avaliar atividades significativas e diferentes.
  3. Ensinar e aprender podem ser feitos de forma muito mais flexível, ativa e focada no ritmo de cada aluno. O modelo mais interessante e promissor de utilização de tecnologias é o de concentrar no ambiente virtual o que é informação básica e na sala de aula as atividades mais criativas e supervisionadas. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam também no seu próprio ritmo. E é decisivo também para valorizar mais o papel do professor como gestor de processos ricos de aprendizagens significativas e não o de um simples repassador de informações. Se mudarmos a mentalidade dos docentes para serem mediadores, poderão utilizar os recursos próximos, tecnologias simples, como os que estão no celular, uma câmera para ilustrar, um programa gratuito para juntar as imagens e contar com elas histórias interessantes e os alunos serem autores, protagonistas do seu processo de aprender.
  4. Os desafios de mudanças na educação são estruturais. É preciso aumentar o número de escolas de qualidade, de escolas com bons gestores, docentes e infraestrutura, que consigam motivar os alunos e que realmente promovam uma aprendizagem significativa, complexa e abrangente. Precisa haver plano de carreira, formação e valorização de gestores educacionais e professores. É preciso políticas consistentes de formação, para atrair os melhores professores, remunerá-los bem e qualificá-los melhor, de políticas inovadoras de gestão que levem os modelos de sucesso de gestão para a educação básica e superior.
  5. Os educadores precisam aprender a realizar-se como pessoas e como profissionais, em contextos precários e difíceis, aprender a evoluir sempre em todos os campos, a ser mais afetivos e ao mesmo tempo saber gerenciar grupos. Devem se transformar em educadores inspiradores e motivadores.

Pelo exposto, a escola precisa, mais do que nunca, fazer com que, com uma nova educação, seja possível na preparação de trabalhadores para desempenhar suas atividades ajustadas aos novos tempos. Para implantar uma nova educação, se torna  imprescindível que se comece a identificar as competências humanas necessárias para o trabalho do século XXI e adequar nosso sistema educacional que está obsoleto para formar cidadãos mais capacitados para uma realidade diferente da era industrial que está chegando ao fim e ainda prevalece no momento.

*Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016).  Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

O PRESIDENTE QUE O BRASIL PRECISA

O PRESIDENTE QUE O BRASIL PRECISA

Fernando Alcoforado*

A prática vem demonstrando a inviabilidade do modelo econômico neoliberal no Brasil implantado pelo governo Fernando Collor e mantido pelos governos Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. O modelo neoliberal é inviável porque da década de 1990 até o momento atual apresentou déficits sucessivos no balanço de pagamentos devido ao crescimento das remessas de lucros e de dividendos pelas empresas multinacionais e o investimento estrangeiro direto cresceu vertiginosamente durante o período visando a cobertura do déficit do balanço de pagamentos em conta corrente contribuindo para a desnacionalização da economia brasileira. A deterioração da balança de pagamentos fez com que se tornasse imperiosa a necessidade de atração de capitais externos contribuindo para a desnacionalização da economia brasileira e aumentar a dependência do Brasil em relação ao exterior.

O crescimento econômico do Brasil foi extremamente baixo, 1,45% ao ano evidenciando um desempenho insatisfatório pelo fato de não apresentar, de forma sustentável, taxas acima de 5% ao ano necessárias à geração de emprego e renda no Brasil. O modelo neoliberal contribuiu também para o processo de desindustrialização do Brasil que regrediu ao nível de 1956 (13,75% do PIB) em consequência da incapacidade de competir com produtos importados da indústria brasileira com a abertura da economia ao capital estrangeiro.

O modelo neoliberal contribuiu para a insuficiência da poupança pública e privada no Brasil que deveria ser da ordem de 25% do PIB para viabilizar o crescimento econômico de 5% ao ano e correspondeu a 17,2% do PIB. A taxa de investimento público no Brasil (1,09% do PIB) foi muito baixa devido ao excessivo comprometimento do orçamento da República com o pagamento de juros e amortização da dívida pública interna que era de R$ 62 bilhões no final do governo Itamar Franco e alcançou mais R$ 3 trilhões no governo Michel Temer.

A política de privatização de empresas estatais inaugurada no governo Fernando Collor e aprofundada no governo Fernando Henrique Cardoso foi retomada pelos governos Dilma Roussef e Michel Temer. A denominada parceria pública privada (PPP) posta em prática pelo governo Dilma Rousseff não era nada mais nada menos do que a nova denominação dada ao processo de privatização de portos, aeroportos, rodovias, etc. O modelo neoliberal contribuiu, também, para a explosão da dívida pública interna e externa e agravamento da crise financeira do setor público devido ao fato de o governo federal gastar mais do que arrecada acumulando dívidas que estão entre as maiores do mundo emergente.

Foi crescente a destinação dos recursos do orçamento para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública interna. Os maiores gastos do governo brasileiro previstos são com juros e amortizações da dívida que correspondem a 45% do orçamento, com a previdência social que correspondem a 22% do orçamento e com transferências a Estados e Municípios que correspondem a 10% do orçamento. Além do elevado dispêndio com o pagamento do serviço da dívida pública, as altas taxas de juros Selic adotadas pelo Banco Central do governo federal, a quinta maior em toda a economia mundial, bem como o crescente déficit do setor público contribuíram decisivamente para o continuado aumento da dívida pública no Brasil.

O fato de que quase metade do orçamento da União ser destinado ao pagamento de juros e amortizações das dívidas interna e externa com tendência de crescer nos próximos anos resultará na incapacidade cada vez maior do governo brasileiro em todos os seus níveis (federal, estadual e municipal) de investir na solução dos problemas de infraestrutura econômica e social e de promover o desenvolvimento do País. O modelo neoliberal contribuiu, também, para o fracasso da política social governamental que se traduz no fato de não ter promovido a verdadeira inclusão social da população pobre com sua inserção ao mercado de trabalho como consequência do crescimento do PIB, isto é, do aumento da riqueza nacional. Houve uma falsa inclusão social porque ela se realizou com a concessão de “migalhas” a 50 milhões de brasileiros pobres através do programa Bolsa Família com recursos do Tesouro.

O fracasso do modelo neoliberal no plano social é materializado, também, no fato de a verdadeira taxa de desemprego correspondeu a 20,8% da população economicamente ativa ao contrário da taxa oficial de 5,3% do IBGE e dos 10,5% do DIEESE registrados em 2014. Na atualidade, o desemprego atinge cerca de 13 milhões de trabalhadores em consequência da recessão que atinge a economia brasileira desde 2014. A precariedade dos serviços públicos de educação, saúde, transporte público, saneamento básico e moradia fez com que o Brasil se posicionasse no último lugar no mundo como provedor desses serviços públicos de baixa qualidade à população. Para completar a grave situação social do Brasil constatou-se a existência de elevada criminalidade em que o País apresenta os maiores índices em todo o mundo com uma taxa anual de aproximadamente 22 homicídios a cada 100.000 habitantes enquanto os Estados Unidos e a França, por exemplo, registram 6 e 0,7 assassinatos, respectivamente.

O modelo neoliberal não proporcionou as condições para superar as desigualdades regionais existentes. As desigualdades regionais do Brasil são bastante elevadas. A região Sudeste responde por 59% do PIB do Brasil, enquanto a região Sul participa com 16%, a região Nordeste com 13%, a região Centro-Oeste com 7% e a região Norte com 5%. Há uma concentração econômica excessiva na região Sudeste do País. O modelo neoliberal não conseguiu reduzir a agressão que se comete ao meio ambiente do Brasil. O Brasil é o 4º maior poluidor do planeta sendo responsável pela emissão mundial de 5,4% dos gases do efeito estufa. Quase 25% das emissões nacionais são procedentes da indústria e da agricultura modernas, e 75% vêm da agricultura tradicional e das atividades madeireiras ineficientes ou predatórias. 75,4% das emissões de gases do efeito estufa no Brasil resultam de desmatamento e queimadas, 22% da queima de combustíveis fósseis, 1,6% de processos industriais e 1% de outras causas.

Este é, portanto, o legado do modelo neoliberal de 1990 até o momento atual de graves consequências para o Brasil. A crise econômica e social que afeta o Brasil no momento deve ser debitada ao modelo neoliberal adotado pelos governos de Fernando Collor a Michel Temer. A manutenção do modelo neoliberal se traduzirá no aprofundamento da recessão, na falência generalizada de empresas, no desemprego em massa, na desindustrialização e na desnacionalização da economia brasileira e, consequentemente, em maior subordinação do País em relação ao exterior. Um governo comandado por um presidente seriamente comprometido com a defesa da soberania nacional, do progresso do Brasil, do bem-estar-social de sua população e do desenvolvimento sustentável tem que, necessariamente, repelir este cenário substituindo o modelo econômico neoliberal por outro que corresponda aos interesses da população brasileira com o governo exercendo um efetivo controle da economia, além de propiciar a retomada do desenvolvimento nacional.

O povo brasileiro deveria eleger futuro presidente da República que tenha a habilidade necessária para motivar e influenciar a população brasileira para que contribua da melhor forma com a consecução dos objetivos do governo. Esta habilidade em influenciar e motivar pessoas requer que o governo adote política de desenvolvimento compatível com as aspirações da grande maioria da população baseada em novo pacto social delineado por uma nova Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva. Este é o ponto chave para o sucesso do futuro governo. Para que isto aconteça, o futuro governo deveria adotar três medidas: 1) montar um gabinete de crise compondo seu ministério com personalidades do mais alto gabarito, inclusive moral; 2) convocar uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva para realizar a reforma política, econômica, do Estado e da Administração Pública; e, 3) promover a recuperação imediata da devastada economia brasileira.

Após a recuperação da economia brasileira, o futuro governo deveria promover a substituição do modelo econômico neoliberal com a adoção do modelo nacional desenvolvimentista de abertura seletiva e controlada da economia nacional durante 10 anos nos moldes dos adotados pelo Japão, Coreia do Sul e China nas décadas de 1970, 1980 e 1990, respectivamente, que apresentaram as maiores taxas de crescimento econômico após a 2ª Guerra Mundial; e, em seguida, a adoção da social democracia nos moldes dos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia) que apresentam os maiores índices de progresso econômico e social simultâneos e política de desenvolvimento sustentável.

Na etapa de recuperação da economia brasileira, deveria haver a realização imediata de auditoria das dívidas externa e interna e a renegociação do pagamento da dívida externa e da dívida interna pública do País visando seu alongamento no tempo para a redução dos encargos com seu pagamento e a elevação da disponibilidade de recursos públicos para investimento. Deveria ser adotada também uma política econômica que priorize: 1) a redução drástica do gasto público supérfluo de custeio com a diminuição do número de ministérios e a eliminação de mordomias; 2) o controle do fluxo de entrada e saída de capitais para evitar a evasão de divisas e restringir o acesso de capitais especulativos no país; 3) a redução acentuada das taxas de juros do sistema bancário para incentivar os investimentos nas atividades produtivas; 4) a importação seletiva de matérias-primas e produtos essenciais do exterior para reduzir os dispêndios em divisas do país; 5) a adoção da política de câmbio fixo em substituição à de câmbio flutuante em vigor para proteger a indústria nacional e controlar a inflação; 6) a reintrodução da reserva de mercado em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento nacional; 7) a reestatização de empresas estatais privatizadas consideradas fundamentais para o desenvolvimento nacional; e, 8) a adoção de uma política tributária como a taxação das grandes fortunas e maior taxação do sistema financeiro que seja capaz de assegurar os recursos de que o Estado necessitaria para investir em educação, saúde, previdência social e nos setores de infraestrutura, entre outros e onerar o mínimo possível a população e os setores produtivos.

Após a etapa de recuperação ou saneamento da economia brasileira, deveria ser adotado o modelo econômico nacional desenvolvimentista de abertura seletiva e controlada da economia a ser implantado durante 10 anos considerando a adoção de estratégias que contribuam para: 1) o aumento da poupança pública e privada visando elevar as taxas de investimento da economia brasileira; 2) a realização de investimentos estrangeiros preferencialmente nas áreas voltadas para as exportações e naquelas em que as empresas nacionais não tiverem condições de suprir o mercado interno; 3) a maximização das exportações brasileiras para expandir as receitas de divisas do país e alavancar o crescimento da economia nacional; 4) a concessão de incentivos fiscais para a atração de investimentos privados em regiões menos desenvolvidas do Brasil; 5) o incentivo e reforço das atividades de pesquisa e desenvolvimento e do sistema educacional do País; e, 6) a redução das desigualdades sociais contemplando a adoção de medidas que contribuam para o atendimento das necessidades básicas da população em termos de alimentos, vestuário, habitação, serviços de saúde e emprego, e uma melhor qualidade de vida. Todo este conjunto de medidas deveria ser posto em prática com base na planificação da atividade econômica nacional que assegure o crescimento econômico e o desenvolvimento do país em bases sustentáveis.

Após 10 anos de adoção do modelo nacional desenvolvimentista de abertura seletiva e controlada da economia, deve-se implantar, em seguida, um novo modelo de sociedade que possibilite uma convivência civilizada entre todos os seres humanos no Brasil. Este novo modelo deveria ser inspirado na social democracia existente nos países da Escandinávia (Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia) onde foi implantado o mais bem sucedido sistema político, econômico e social, com os necessários aperfeiçoamentos e adaptações no Brasil. Foi a social democracia construída até hoje nos países escandinavos o único modelo de sociedade que permitiu a realização de progresso econômico, social e político sem similar na história da humanidade, com o Estado atuando como mediador dos conflitos entre os interesses do capital e da Sociedade Civil. Não é por acaso que os países escandinavos são líderes mundiais no Índice de Progresso Social da ONU e em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) no mundo pelo fato de apresentarem grandes êxitos políticos, econômicos e sociais.

A social democracia a ser implantada no Brasil deveria resultar, portanto, do aperfeiçoamento do modelo escandinavo que operaria com um tripé estruturado com base em um Estado neutro, Sociedade Civil Organizada ativa e Setor Produtivo (estatal e privado) eficiente e eficaz. O Estado neutro buscaria compatibilizar os interesses do Setor Produtivo (estatal e privado) com os da Sociedade Civil mediando seus conflitos em várias instâncias dos poderes executivo e legislativo que, quando não se obtém o consenso, a decisão final ficaria a cargo da população que decidiria democraticamente através de plebiscito e/ou referendo. Na nova social democracia, não deveria ser permitida a ação de grupos monopolistas e cartéis privados na economia. Empresas privadas só atuariam em setores econômicos onde houvesse competição. Empresas estatais ou de economia mista ocupariam os setores econômicos onde não fosse possível haver competição.   Este é o novo Brasil que precisaria ser inventado. Cabe observar que esta proposta de invenção de um novo Brasil está detalhada no livro de nossa autoria A invenção de um novo Brasil publicada pela Editora CRV de Curitiba em 2017.

As forças progressistas da nação que desejam o fim da corrupção, a retomada do crescimento econômico, o desenvolvimento do Brasil em novas bases e a defesa da soberania nacional deveriam se unir envidando esforços no sentido de escolher um candidato à presidência da República comprometido com as propostas apresentadas linhas acima e derrotar as forças retrógradas que desejam a manutenção do “status quo”. Urge, portanto, o lançamento de um candidato à presidência da República que se comprometa a romper com o neoliberalismo e colocar em prática as estratégias sugeridas linhas acima.

*Fernando Alcoforado, 78, membro da Academia Baiana de Educação e da Academia Brasileira Rotária de Letras – Seção da Bahia, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015), As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016) e A Invenção de um novo Brasil (Editora CRV, Curitiba, 2017).

A CONQUISTA DA FELICIDADE SEGUNDO BERTRAND RUSSELL

Fernando Alcoforado*

Bertrand Arthur William Russell foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. A Conquista da felicidade, uma das obras de Bertrand Russell, representa contribuição importantíssima ao debate sobre a questão da felicidade (RUSSELL, Bertrand. A Conquista da Felicidade. Rio: Editora Nova Fronteira, 2015). Para Bertrand Russell, a primeira causa da felicidade que possa ser buscada por todos os homens é o prazer. Por prazer, se deve entender a realização de algo que supera algum obstáculo. Russell compreende que o homem sempre almeja o prazer e ele só pode ser alcançado quando as dificuldades em buscá-lo são superadas.

Para estabelecer um sentido para a palavra “prazer”, Russell considera que superar obstáculos requer alguma perícia. A perícia é fundamental para incentivar os instintos criativos. Nesta compreensão, o prazer em sua base deve ser entendido como a realização de algo que enseja a criatividade (grifo nosso). Nesta conceituação, o prazer pode ser alcançado tanto pelos cientistas que tentam responder os problemas por métodos rigorosos, quanto pelos pintores e literatos ao contemplarem suas obras concluídas. Portanto, Russell indica que o prazer é o caminho para a felicidade quando desperta no homem a criatividade (grifo nosso).

Ainda neste incentivo à criação, Russel explica que fatores importantes para atingirem a felicidade são a cooperação e a associação (grifo nosso). Isso significa dizer que, as criações e invenções devem ser dialogadas ou comunicadas para aumentarem o incentivo entre os homens para a vocação. A associação de homens, em torno de uma crença, pode trazer questões científicas ou artísticas, de modos diversos, mas que causam o prazer. A felicidade, então, possui um caminho bem traçado que é a crença em ideais da busca pelo prazer (grifo nosso).

No período em que Russell viveu, há explicações filosóficas que tratam o homem como um ser-para-morte ou que tratam a vida como um drama. Estas explicações muitas vezes tratam a vida sem sentido ou vazia de significados. Tais explicações são consideradas pelas escolas existencialistas. Russell não entende a vida desta forma. Para ele, quando há esta perda de sentido o homem se deixa levar por tolices ou manias que são máscaras para fuga da realidade. No livro, em questão, Russell dedica um capítulo específico que diverge de tais explicações existencialistas. Para ele, as pessoas desejam ser amadas e não toleradas.

A melancolia é a perda do gosto de viver. E Russell dedica um especial capítulo, no seu livro, para tentar investigar essa perda pelo gosto de viver. Vejamos a seguir os principais argumentos que ele apresenta. A condição para o homem se distanciar da melancolia é ter o gosto por viver. E a felicidade é a tradução deste apetite pela vida. Por apetite de viver, se deve entender o interesse pelas coisas que a vida nos apresenta. Para Russell, quanto mais objetos pelos quais o Homem se interessar mais ocasiões ele terá para ser feliz. Russell explica que é o interesse pelas coisas que rodeiam a vida, mas ao perceber tais coisas muitas vezes encontramos a nós mesmos. A busca da felicidade nesta compreensão significa o Homem se interessar por maior número de coisas possível (grifo nosso).

Segundo Russell, os interesses, quando se apresentam muito restritos distanciam o Homem da felicidade porque a chance da decepção, é ainda maior. Portanto, a continuação do caminho para a felicidade é o gosto pela vida e isso implica em se surpreender com o mundo. Para que haja um resgate do gosto de viver, o Homem precisa se sentir amado. Ao ser amado o Homem compreende a afeição como uma bondade (grifo nosso). Deixaremos claro, que Russell quer buscar os significados básicos para que a felicidade seja resgatada por todos independentemente de sua localização ou cultura. Então, a bondade deve ser compreendida como algo universal e para isso a investigação ganha um sentido mais simples. O Homem deve resgatar o bom “em si mesmo”. Um aspecto importante deste “bem em si mesmo” é a afeição que devemos receber e ao mesmo tempo dar. Por afeição, o Homem deve não agir por interesse, mas visar sempre a bondade inerente ao ser humano. Portanto, a afeição é uma troca desinteressada que não deve almejar segurança, proteção ou fuga da solidão. Ao contrário, a afeição deve ser incentivada na medida em que integre o Homem numa união, numa associação que não vise nenhum interesse. Apenas a comunhão do gosto pela vida.

O texto de Russell foi escrito com uma condução ética hedonista. Isto é, a felicidade deve ser considerada sempre como um bem perseguido por todos (grifo nosso). As categorias essenciais que procuramos demonstrar neste texto traduzem a tentativa de Bertrand Russell de apontar os caminhos para a conquista da felicidade e seus obstáculos. Ao contrário da felicidade, as infelicidades são produzidas pela falta de amor à vida que causam a desintegração do Homem (grifo nosso). O homem feliz, ao contrário, se considerar as categorias apresentadas para viver sentirá a unidade entre o íntimo e o mundo exterior. Tal unidade é o que o previne da compreensão sobre a vida como drama ou como melancolia. A unidade do íntimo com o externo é a causa fundamental da felicidade (grifo nosso) que é um caminho a ser percorrido por qualquer discussão ética contemporânea.

Em síntese, Bertrand Russell considera que a felicidade e que o prazer em sua base devem ser entendidos como a realização de algo que enseja a criatividade. A cooperação e a associação são fatores importantes para atingirem a felicidade no trabalho científico e no trabalho em geral. Esta condição dificilmente será alcançada em uma sociedade caracterizada pela competição e pelo conflito entre os seres humanos como a capitalista. Em outras palavras a felicidade jamais será alcançada no capitalismo.  Russell conclui que a felicidade, então, possui um caminho bem traçado que é a crença em ideais da busca pelo prazer e é, também, a tradução do apetite pela vida. Por apetite de viver, Russell entende como o interesse pelas coisas que a vida nos apresenta. Para que haja um resgate do gosto de viver, o Homem precisa se sentir amado. Ao ser amado o Homem compreende a afeição como uma bondade. Esta condição não será alcançada também em uma sociedade em desintegração como a capitalista em todos os quadrantes da Terra As infelicidades são produzidas pela falta de amor à vida que causam a desintegração do Homem.

Para Russell, quanto mais objetos pelos quais o Homem se interessar mais ocasiões ele terá para ser feliz. A busca da felicidade nesta compreensão significa o Homem se interessar pelo maior número de coisas possível. A felicidade deve ser considerada sempre como um bem a ser perseguido por todos. Esta conclusão de Russell aponta no sentido de que a felicidade deve ser perseguida e compartilhada por todos que, nas condições atuais, é impossível de ser realizada.  Russell finaliza destacando a unidade do íntimo com o externo como causa fundamental da felicidade. Isto significa dizer que a felicidade só será completa se há compatibilidade entre o indivíduo e o ambiente externo.

*Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas, Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016).  E-mail: falcoforado@uol.com.br.